Não havia nada. Nem concertos, nem visitas guiadas, nem cerimónias, nem artistas a chegar para a inauguração. Nada. Mas a enchente curiosa no pátio dourado da Casa da Música, no Porto, ontem, ao início da tarde, era indisfarçável. Dezenas de pessoas, estáticas, recusavam sair dali, do sítio onde podiam vislumbrar, pela primeira vez aberto, o edifício do arquitecto holandês Rem Koolhaas.
"Não consigo sair daqui", confessa Alberto Lopes, 73 anos e mãos cruzadas nas costas, movendo-se para a esquerda e para a direita, mas sem ousar afastar-se dali. "É uma coisa extraordinária, não é?", diz para si próprio. "Já fui lá dentro, dei uma voltinha por onde me deixaram, e acho tudo tão fora do vulgar", exclama. E reforça "Não consigo mesmo sair daqui. Parece que há sempre mais alguma coisa que me falta ver." Alberto Lopes não ficou para os concertos da noite - já não conseguiu bilhetes -, mas promete "voltar um dia, com mais calma. Ou vários dias, para ver tudo mais a sério".
No interior da Casa, a confusão deslumbrada era semelhante. Visitantes perdidos, centenas de jornalistas, seguranças alerta, tudo e todos esbarravam no limite do foyer, multiplicando-se em perguntas. Onde é a casa de banho? Até onde podemos ir? Quando há visitas ?
Se houve quem passou na Boavista "por acaso" e não resistiu a estacionar, houve também quem viesse de longe propositadamente para testemunhar o primeiro impacto da Casa. "Viemos de Montes Burgos a pé, meia hora de caminho", revela o casal Maria Otília e João Moutinho. Há largos meses que a dupla de 50 anos faz semanalmente o passeio. "Assistimos a tudo, ao crescimento todo", afirmam, orgulhosos. E ontem só tiveram pena de não assistir aos concertos. "Os bilhetes são carotes. Mas havemos de vir, nem que seja só uma vez na vida".
Mais dispendioso ainda considera Francisco Alves, vendedor da revista "Cais", instalado nas escadas da Casa, com um leque de publicações na mão, para "ver se a gente da cultura também ajuda os pobres". O ex-operário da construção civil, "63 anos de viagens pelo mundo", acha inaceitável "esbanjar 20 milhões de contos na casa de um país onde não há reis nem rainhas". Esses, sustenta, "é que podem ter essas fantasias". Mas a experiência profissional diz-lhe "que o edifício é de categoria".