Apróxima semana será crucial para António Guterres enquanto candidato à liderança do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Amanhã, será ouvido pela comissão de especialistas que irão avaliar a sua competência para um mandato de quatro anos. E nos dias 20 e 21, a diplomacia portuguesa terá oportunidade para fazer lóbi junto da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, que estará em Vilnius, Lituânia, para a cimeira da OTAN. Porque sem o aval dos EUA, não há candidatura que vingue no sistema da ONU. Se a operação falhar, Guterres será o novo dano colateral da guerra no Iraque.
Embora as qualidades pessoais de Guterres sejam reconhecidas, poderão não chegar para ocupar o cargo. Por nisso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros encara a corrida, que conta com mais sete personalidades, como o desafio imediato mais importante da diplomacia nacional, que está a mobilizar todos os recursos para obter apoios no mundo inteiro. O trabalho das embaixadas já garantiu, entre outros, Espanha e Brasil. Auscultadas as sensibilidades na sede da ONU, em Nova Iorque, que acolhe embaixadas de todo o planeta, a colheita terá sido tal que fonte diplomática afirmou ao JN ser "convicção do MNE que Guterres estará entre os três nomes finalistas, a par do tunisino e do dinamarquês".
Mas falta aquele que, "numa perspectiva realista", será o principal os EUA. E, neste aspecto, António Guterres tem um problema: "Ao contrário do que possa parecer pelo tom cordato nas visitas recentes do presidente dos EUA, George W. Bush, e de Rice à Europa, a Administração Bush mantém um ódio profundo àqueles que se opuseram à invasão do Iraque, que foi o caso de Guterres como presidente da Internacional Socialista". Assim, o trabalho a desenvolver passa por convencer Washington. Segundo a mesma fonte, um dos elos fundamentais no processo é Londres, que cultiva a "special relationship" com os EUA, e patente no alinhamento incondicional do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, com Bush. Outro será o contacto directo com a Casa Branca. O tempo para a diplomacia nacional, porém, escasseia. Visto que o processo de eleição do novo alto-comissário do ACNUR - ocupado interinamente por Wendy Chamberlin, após a resignação de Ruud Lubbers, a 20 de Fevereiro, acusado de assédio sexual -, deverá estar concluído no início de Maio, a oportunidade apresenta-se quando Rice chegar a Vilnius. Ali, Lisboa deverá exercer toda a sua capacidade argumentativa e de sedução para convencer os EUA de que Guterres é, afinal, o homem certo para um cargo assim.