Mais um capítulo sem consenso na já longa discussão sobre o Centro Materno-Infantil do Norte. Com a decisão governamental de suspender a execução da unidade, anexa ao Hospital de S. João (Porto), os especialistas dividem-se perante a ordem de reavaliação do projecto, dada pelo ministro Correia de Campos à Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte. Face à ocupação do terreno do antigo Bairro de Parceria e Antunes, a Administração do Hospital de Santo António terá, de novo, a oportunidade de defender a instalação do centro no terreno do ex-CICAP, junto à unidade hospitalar.
Para já, o presidente da Administração do Santo António, Sollari Allegro, mantém o silêncio, sendo certo, porém, que o projecto do hospital será recuperado em futuros contactos com a nova direcção da ARS do Norte. A partir de segunda-feira, Avides Moreira entrega o dossiê do CMIN ao novo presidente da ARS, Maciel Barbosa, que, contactado pelo JN, preferiu não comentar, neste momento, os passos a dar para encontrar uma solução para o centro. Seja qual for a decisão, nunca será consensual.
Ao longo de 20 anos de discussão, o ex-ministro da Saúde, Paulo Mendo, tem acompanhado a evolução e os impasses no processo do CMIN. O antigo governante aplaude a decisão de Correia de Campos e mantém a defesa do "projecto primitivo" para a construção de um "equipamento autónomo e de filosofia própria". O problema reside na localização, já que o terreno de Parceria e Antunes, contíguo à Maternidade de Júlio Dinis, está ocupado por um bairro municipal. "Apesar de haver alguma ocupação, deve ser recuperado o projecto inicial para aquele local. Se não for possível, defendo a construção de raiz do CMIN noutro espaço", sustenta Paulo Mendo.
Já o presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos, Jorge Amil Dias, é favorável à instalação do centro, junto ao Hospital de S. João, podendo ter uma gestão independente. Acredita, assim, que esta solução permite um melhor aproveitamento dos recursos tecnológicos e humanos, criando condições físicas modernas para cuidar da saúde infantil e materna. "Infelizmente, esta discussão foi excessiva e incorrectamente politizada. Se há estudos e projectos já feitos, por que é que vamos duplicar os custos?", questiona, lembrando que a construção do CMIN, junto ao S. João, contava com um apoio comunitário de 75%.
O director do departamento de Neonatologia do Hospital de Santo António, Octávio Cunha, rejeita a instalação da unidade no "S. João". Não tem dúvidas de que seria um erro e lembra a posição da Comissão Nacional de Saúde da Mulher e Criança, que terminou os trabalhos em Novembro passado, favorável a uma solução alternativa. "Era criar um monstro num hospital que já é monstruoso. Teria de ir buscar funcionários e profissionais a outros hospitais", salienta, recordando que há unidades hospitalares no Norte que têm um número insuficiente de obstetras para os serviços existentes nesses hospitais.