E os portais ocupados por engraxadores, que tratavam do brilho dos "chuchos" como verdadeiros mestres. Eram centros de animação, onde, entre o esfregar das escovas e o estalar dos panos de cotim que puxavam o lustro, se falava de tudo e mais alguma coisa. Aquelas vozes mostravam estar vivas e não paravam um minuto. Quando havia cadeira vaga, vinham para o passeio chamar o freguês com a oferta de "Graxa à Croa", um dos pregões que se ouvia nos passeios de Sampaio Bruno.
Noutros portais, mais sossegados, encontravam-se as apanhadeiras de malhas, chamariz de conquistadores baratos, que se derretiam com piropos, gabando a arte das mãos das artistas, que, sem pararem o movimento da agulha dentro do copo por onde deslizava a meia de vidro, ofereciam um olhar maroto (de esperança ou, as mais das vezes, de gozo).
Na Baixa havia gente que lá tinha nascido e de lá não queria sair. Só morta. Não se viam casas em ruínas ou portas trancadas. Via-se, isso sim, janelas abertas com cortinas de renda ou de cretone e pessoas de cotovelos pousados no parapeito, apreciando o movimento.
E, nos andares mais altos, cordas com roupa a secar, mostravam espécie de bandeiras desfraldadas ao vento.
Das janelas, a vizinhança ia falando para baixo, atendendo vendedeiras, que, de porta em porta, mercavam hortaliças, legumes ou frangos, bancos, cadeiras ou colunas.