As suspeitas levantadas nos últimos dias sobre algumas decisões de última hora do governo de Pedro Santana Lopes são mais um exemplo da extrema fragilidade da política face aos negócios. É uma situação que se repete, governo após governo, que ciclicamente provoca algum alarido sem que daí costumem resultar mais do que incómodos passageiros. A impunidade do esquecimento tem-se encarregado de fazer andar a roda do tempo, apesar dos precalços do descrédito.
As campanhas políticas são cada vez mais caras e o seu preço está longe de ser pago democraticamente. Não é por acaso que a propaganda eleitoral se tornou um departamento do marketing comercial. A propaganda de outros tempos é hoje publicidade de marca mais ou menos adaptada às estações...
A carestia política afasta muitos cidadãos íntegros. Não raro, só vai para a política quem tem dinheiro ou quem quer ter mais dinheiro. E os que se dedicam ao serviço público pagam um preço elevado por não pactuarem com interesses particulares.
O caso da herdade da Vargem Fresca, uma parcela importante da Companhia das Lezírias que passou para uma empresa privada lesando o interesse público, é exemplar. Começa com uma privatização dissimulada no início dos anos 90, auditada pela Inspecção-Geral de Finanças em 96, que produziu um relatório contundente em 99, escondido até 2002. Este negócio, nos termos em que foi feito, nunca devia ter sido permitido.
E esta é a questão essencial quando somos confrontados com o corte de sobreitos, último passo para fazer esquecer a propriedade agrícola e concluir o projecto turístico. De resto, o despacho apressado de três ministros, de malas aviadas, serve apenas para perceber como os elos dos negócios funcionam com persitência e desfaçatez. O ar cândido e inocente com que alguns desses actores reagem quando ficam a nu, em público, evidencia a sua condição de peões de brega. Figuras instrumentais que vão hipotecando a política aos negócios, que nos envergonham enquanto eleitores, e que nos devem obrigar a exigir mais integridade no zelo pela «coisa pública».