Há dias os agentes da autoridade voltaram a guarnecer alguns cruzamentos da cidade, corrigindo o automatismo dos sinais luminosos e ordenando directamente o trânsito. Ora, esse auxílio dos agentes da autoridade, que é uma prática corrente em todas as cidades que se adequam mal às horas de ponta, não acontece entre nós. Bem pode chover, fazer sol ou trovoada, haver ou não haver acidentes a entupir a cidade, que polícias... nem vê-los. É sabido que, neste capítulo, a preocupação das nossas polícias vai muito mais para o estacionamento do que para o movimento e, mesmo assim, nem sempre, nem em todo o lado, nem com o melhor critério. E quando vai além disso é porque há operação organizada - e isso é raro - ou, então, porque "o radar estava lá" - e isso também é raro e só acontece onde é mais fácil.
Ora, isto é assim porque a formatação das nossas polícias está muito mais virada para a repressão do que para a cooperação. Claro que um país como o nosso, com os dirigentes que temos, não podia gerar outra polícia que não fosse esta. Não que todos os dirigentes e que todos os polícias sejam maus, mal formados, incompetentes, limitados ou ignorantes. Nada disso. Infelizmente, o problema dos dirigentes e dos polícias é o mesmo da sociedade em geral, ou seja, é um problema de cultura e, sobretudo, da quase completa ausência de uma verdadeira "cultura da responsabilidade". O problema dos cidadãos é, por seu lado, o de o tentarem convencer sistematicamente de que assim é que está certo! Ora, isto é uma perversão e, lutar contra ela, é obrigação permanente de todos.
Dizia eu que, nos últimos dias, voltaram a ser vistos agentes da autoridade a orientar o trânsito em alguns cruzamentos da cidade. Então, dei comigo a pensar que alguém tinha finalmente percebido que os sistemas automáticos, por mais sofisticados que sejam, não resolvem tudo, quando reparei que, aquela, já não era propriamente uma hora de ponta nem aquele um local onde, por hábito, se gerasse grande confusão. Contudo, passando-se isto nas imediações do Estádio do Dragão e não havendo futebol, admiti que o mesmo estivesse a ser palco de algum acontecimento excepcional e, por isso, se apresentasse como inteiramente justificada a presença dos senhores agentes, hiper-activos, vestindo luminosamente e dando à intervenção um carácter de urgente utilidade pública. Mas não! O estádio tinha as luzes apagadas, ainda que a alameda que lhe dá acesso estivesse pejada de automóveis e os passeios a abarrotar de gente. Reparei, então, que os transeuntes traziam sacos de compras e caminhavam em grupos aparentemente familiares. Embora distante da profusa publicidade que, há já alguns dias, enchia a cidade anunciando que "o Porto tinha mais um monumento", verifiquei a conexão entre todas estas coisas e compreendi, então, que só a abertura de mais uma "catedral do consumo" podia animar daquele modo, famílias, cidadãos e também, a própria polícia! Com efeito, a confusão gerada naqueles cruzamentos, não podia deixar de ser uma das primeiras confirmações de que o célebre "Plano de Pormenor das Antas", começava a produzir os efeitos já calculados e a convicção de que aquela zona da cidade irá, certamente, transformar-se num dos seus mais quentes infernos. Nada, portanto, que não estivesse já previsto!
Os primeiros dias desta "doce vida", foi um corrupio de gente, carros e polícias. Veremos como são os que se seguem e à medida que outras "doces vidas" forem aparecendo e, sobretudo, em dias de bola. A mistura é potencialmente explosiva!
Certo, certo, é que, por mais "nós cegos" que haja no trânsito da cidade, continua a não haver polícias nos cruzamentos e em outros locais onde os entupimentos são diários como, por exemplo, junto às escolas que, às horas de ponta, convocam centenas de automóveis, como só acontece em cidades sem transportes escolares. Entretanto, o importante é a "féria" que o estacionamento, frequentemente ilegal mas nem sempre perturbador, vai proporcionando aos cofres policiais.