OF. C. Porto não desistiu de apresentar a "factura" de dois milhões de euros à Câmara portuense pela paragem das obras de construção do estádio do Dragão, durante 32 dias, em 2002. O antigo vice-presidente do clube, que conduziu o processo de execução do estádio, Angelino Ferreira, garantiu, ontem de manhã, que esse "dossiê ainda está em aberto" e apenas não foi pedido o ressarcimento por razões "estratégicas".
A intenção foi manifestada no depoimento do ex-dirigente durante a segunda sessão do julgamento da acção judicial, interposta pelo socialista Nuno Cardoso, contra o presidente da Câmara, Rui Rio, por difamação, que decorre no Palácio da Justiça. Na qualidade de testemunha, Angelino Ferreira deixou claro que o prejuízo pela interrupção dos trabalhos "é uma factura que ainda está por apresentar a seu tempo. É nossa intenção fazê-lo", embora admita que a decisão de parar a obra em 2002 partiu da direcção do F. C. Porto.
"Fomos confrontados com a necessidade de parar as obras. Foi uma decisão empresarial face às dúvidas sobre o Plano de Pormenor das Antas (levantadas pelo actual Executivo liderado por Rui Rio), porque estávamos a enterrar milhões e foi necessário fazer uma análise custo-benefício", explicou Angelino Ferreira, recordando que o F. C. Porto abandonou as negociações com a Câmara, no momento em que foi chamada a Associação de Comerciantes do Porto, presidida por Laura Rodrigues, para as conversas, mantidas, ainda, com o Grupo Amorim, que tinha comprado os lotes do clube. "O que mais me entristeceu foi que a dona Laura é que acabou por viabilizar o plano", rematou.
Na sessão, Angelino Ferreira indicou que o negócio de venda de terrenos na zona das Antas com o Grupo Amorim rendeu 80 milhões de euros. Os mesmos lotes que, no âmbito da perequação para o Plano de Pormenor das Antas (PPA), tinham sido avaliados em 300 euros por metro quadrado edificável - de acordo com o depoimento do ex-presidente da APOR, Pedro Silva, na sessão de ontem do julgamento - pela autarquia foram alienados a um preço superior, posteriormente, pelo F.C. Porto. O clube vendeu o lote para habitação por 400 euros por metro quadrado e o terreno para comércio por 550 euros por metro quadrados.
Apesar do engenheiro Pedro Silva ter confirmado, em tribunal, que uma parte dos 25% de capacidade edificatória atribuída à autarquia pelos proprietários privados nas Antas para o Município executar as infra-estruturas foi entregue ao F.C. Porto, no cumprimento de um "acordo político" (validado pela Câmara e pela Assembleia Municipal do Porto), Angelino Ferreira defendeu que essa capacidade edificatória foi dada ao clube portuense para "compensação da perda de activos, que tinha a ver com a exploração do bingo e a perda das piscinas e pavilhões". Os equipamentos tiveram de ser demolidos para concretizar o Plano de Pormenor das Antas (PPA).