Portugal ainda não está preparado para aceitar uma verdadeira reforma da Administração Pública. Economistas e empresários admitem que não existe na sociedade portuguesa um clima que permita ao Governo, qualquer que ele seja, reestruturar os fundamentos do Estado.
É nesse sentido que se têm sucedido avisos de que o país necessita de um "grande abanão", como dizia Miguel Cadilhe, na entrevista concedida ao JN, no passado domingo, ou um "sobressalto", pedido por Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal.
A redução do peso da Administração Pública na economia é indispensável para equilibrar as contas do Estado e reduzir o défice. Mas, antes de ser uma questão financeira, é uma questão política, concordam os economistas Medina Carreira e João César das Neves.
É ponto assente nos sucessivos estudos realizados que o Estado português é demasiado grande. Mas, pela simples força do número de famílias que poderiam ser atingidas por encerramentos ou restruturações de serviços, avaliações de desempenho, deslocações de uma zona do país para outra, por exemplo, o custo político de uma real reforma será insustentável, enquanto a sociedade entender que o actual estado de coisas é sustentável.
O Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, por exemplo, entende que é possível "reduzir serviços, mas não reduzir pessoal", e que as reformas têm falhado "por falta de vontade política", que não faz o suficiente para "combater a economia paralela", disse Bettencourt Picanço.