Achamada Muralha Fernandina do Porto foi levantada ao longo de três reinados, de D. Afonso IV (em 1336) a D. Fernando (em 1376). Teria de perímetro à volta de três quilómetros e, rodeando o primitivo aglomerado de Penaventosa, estendia-se até ao morro da Vitória, descia junto a Miragaia e ladeava a frente ribeirinha entre a Ponte Nova e os Guindais. Com ela, o Porto e os seus burgueses respiraram com algum alívio a coberto dos ataques - por terra - do inimigo tradicional castelhano e - pelo rio - dos piratas que, por vezes, subiam o Douro até Massarelos.
A construção obedeceu a cuidadosa preparação e exacto conhecimento do terreno, aproveitando os acidentes da geografia, da encosta de Miragaia a S. João Novo, entre S. Bento e a Batalha e, sobretudo, sobre as escarpas dos Guindais, onde se tornava intransponível. E, do lado sul, o rio. As portas davam para estradas importantes a do Sol deitava para Antre-Ambos-os-Rios, a da Batalha (ou de Cima de Vila) para Trás-os-Montes, a dos Carros para Guimarães, a do Olival para Viana e Braga, etc..
A altura da muralha era de 11 metros e a sua construção deveu-se tanto ao cofre do Município como a doações dos moradores das vilas, cidades e aldeias em redor do burgo, e ainda à contribuição régia e à anúduva (obrigação dos vassalos servirem de mão-de-obra na reparação de muralhas e castelos). A Cerca Portuense era, simultaneamente, elemento de dissuasão e defesa e afirmação da vontade e do orgulho da cidade na sua soberania, independência e resistência. Ajudou a enraizar nos tripeiros o forte sentido bairrista e o apego a um território identitário que marcaria indelevelmente a personalidade do burgo.
A partir dos finais do século XVIII, uma cidade ávida de modernização, espartilhada dentro de muros, em reacção contra o «atraso» do medievalismo «obscurantista», aliada ao progresso das luzes e, depois, do liberalismo, não teve contemplações para com a muralha. Na sua maior parte foi arrasada (aproveitando-a para modernos edifícios e pavimentação) ou serviu de encosto e parede de fundo a novas construções (nas Taipas, Batalha, Cordoaria). Sobrevivem dois panos bem conservados nos Guindais e no Caminho Novo, um trecho com cubelo (torreão) entre o antigo Clube Inglês e o falecido Museu de S. João Novo, além de uma porção da Porta do Olival dentro do café do mesmo nome e, claro, os muros dos Bacalhoeiros e da Ribeira.
Em 1871, a Câmara procedeu a uma das maiores operações de reconversão urbanística ocorridas na cidade, com o objectivo de abertura da Rua Nova de Alfândega. Foram arrasadas cerca de duzentas casas, além de ruas, travessas, vielas e escadórios. E, além do mais, desapareceu a Porta de Miragaia, um bastião de planta redonda, e o troço da muralha entre aquele fortim e o actual Muro dos Bacalhoeiros. Desapareceram mas não foram completamente destruídos.