Não fosse o programa do Bloco de Esquerda referir especificamente o casamento homossexual, ainda que timidamente, e a questão provavelmente não saltaria para esta campanha eleitoral. Mas a hipotética aproximação do partido de Louçã a um governo socialista terá feito o líder do PSD, Pedro Santana Lopes, recordar o tema. Para dizer que é radicalmente contra e obrigar os outros candidatos a dizerem o que pensam. Ficou claro que o exemplo de Espanha, que aprovou o casamento homossexual em Dezembro, não parece ser para seguir.
Longe da política, imperou a calma nas reacções. A sociedade parece ter tomado em mãos a decisão de não deixar a campanha polarizar-se com um "tema fracturante" como este. E não se meter numa guerra política que, dizem alguns interlocutores com quem o JN contactou, visa conquistar um eleitorado conservador que poderia votar no PS ou no CDS/PP. E aquilo que se ouve é a remissão para as posições habituais as associações homossexuais apontam as propostas apresentadas aos partidos antes da campanha, a Igreja Católica remete para comunicados passados exortando "o ideal de família sonhado por Deus".
Sobra o debate. Conquistado em 2001 o direito à união de facto e, em Abril de 2004, o direito constitucional à igualdade e à não discriminação (com a inclusão da orientação sexual no artº 13, aprovada por todos os partidos), a pergunta é o que pode trazer o casamento civil entre homossexuais. Antes de mais, dizem as associações de defesa dos direitos de gays e lésbicas, o direito ao casamento é justamente o respeito pelo articulado constitucional. E, defende a associação Ilga Portugal, num comunicado ontem emitido reeditando textos anteriores, o direito de, como os heterossexuais, poder escolher entre união de facto e casamento. Porque o casamento, enumera António Serzedelo, da associação Opus Gay, permite direitos civis como o direito à herança do cônjuge, o reconhecimento imediato da união (e não apenas ao fim de dois anos), ou a manutenção da morada comum, para lá de cinco anos após a morte de um dos elementos. A Ilga acrescenta a responsabilidade de ambos, em caso de dívida contraída em benefício do casal.
Se as uniões de facto fossem regulamentadas como nos países nórdicos, equiparar-se-iam aos casamentos e poderiam até limitar a sua exigência a uma simples questão de igualdade, explica Serzedelo. Até porque, segundo o sexólogo Júlio Machado Vaz, o "casamento moderno é consensualmente visto como uma instituição baseada no afecto". E já "não na reprodução". Ora a questão dos filhos é justamente um dos argumentos dos opositores à união civil entre pessoas do mesmo sexo, que argumentam com a abertura que a figura do casamento traria em relação à adopção por casais homossexuais. E quanto a essa, o consenso está longe de existir.
Politicamente falando, a defesa desse direito fica-se pelo BE. E mesmo entre as associações homossexuais, a cautela é palavra de ordem. A Opus Gay fala mesmo em avanço progressivo, embora lembrando que o artº 36 da Constituição estabelece o direito de "todos" constituírem família.