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Casamento de homossexuais

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No único comício, e presume-se que principal, do PSD no distrito de Braga, Luís Filipe Menezes e Santana Lopes decidiram, como se tirassem um coelho da cartola, tomar como assunto central o casamento dos homossexuais. Mas o truque do coelho já não pega. Já não tem dramatismo, exotismo ou provoca espanto. Pelo contrário, este tipo de coelhos só provoca enfado e confirma a falta de dimensão dos mágicos, que insistem em tratar os espectadores como crianças grandes rendidas a truques infantis.

O truque, no caso, consiste em desviar as atenções dos graves problemas da região para um assunto supostamente antipático a eleitores supostamente conservadores. Claro que, cá como no país, o casamento dos homossexuais, sendo assunto e tendo relevância para a minoria homossexual, está na décima quinta das prioridades nacionais. Antes encontra-se quase tudo o resto o crescimento económico, o desemprego, os problemas sociais mais variados, a literacia e o acesso à formação e à educação, as reformas do sistema político, do Orçamento, da educação, da saúde, etc., etc.. Mas os mágicos do PSD não pensaram assim. Pensaram que seria mais fácil encandear a plateia com os supostos ataques da Esquerda aos valores tradicionais do catolicismo minhoto de que, claro, o casamento heterossexual é o mais sagrado e mais resplandecente. A manobra é, obviamente, ridícula, mas introduz na campanha um novo vector, o vector moral(ista), que, importado de outras paragens e de outras tradições, pode vir a contagiar a nossa ténue tradição constitucional de justa separação entre aquilo que é do domínio da política (da justiça) e o que é do domínio da moral (do bem). Não que a dimensão pessoal do que é bom não possa e não deva afectar as nossas concepções do que é justo. Nada disso. O problema é quando uma coisa é substituída pela outra. Quando as nossas concepções de bem pretendem substituir as concepções de justiça e interesse públicos, introduzindo na sociedade factores de conflitualidade incomensuráveis. Ainda que sem o saberem (ou sabendo-o e estando-se marimbando para isso), Luís Filipe Menezes e Santana Lopes ensaiaram essa confusão no seu último comício bracarense, apelando para os valores morais (e, subtilmente, religiosos) para justificar valores políticos. Ora, este tipo de deriva reaccionária (porque nos faz recuar a tempos em que a moral e a religião fundavam a política e as relações sociais) sabe-se onde começa mas não se sabe onde acaba, sobretudo num tempo em que os fundamentalismos morais e religiosos parecem emergir com nova e inusitada força.

Poder-se-ia dizer que Santana Lopes e Luís Filipe Menezes fizeram aquilo para que estão programados, dada a sua posição na direita mais conservadora do próprio PSD. Mas isso seria só meia verdade. A outra meia seria a de que ambos estão onde estão na geografia do PSD não tanto pelas suas ideia conservadoras ou reaccionárias, mas antes pelo seu populismo extreme, dado a todos os truques, o mesmo é dizer, dado a todas as excitações populistas, desde que isso sirva os seus interesses eleitorais e independentemente dos efeitos colaterais, ou directos, daquilo que dizem ou fazem. Por isso é que são tão bons a discursar e a discutir. Dada a sua conspícua flexibilidade política e táctica, é, na verdade, impossível fixar-lhes argumentos contra os quais argumentar, ideias contra as quais discutir. Tudo neles é elástico, móvel e fluído. Escapam-se, assim, pelo meio dos dedos de qualquer argumentador, já que não tem ponto de atracção cultural ou ideológico onde se possa parar, para desconstruir ou contra-argumentar. Hoje deu jeito lembrar que os esquerdistas do PS querem destruir o Sagrado Matrimónio Heterossexual, quando toda a gente esperava era que falassem sobre modelos e propostas de desenvolvimento económico e social. Amanhã, lembrar-se-ão de outra coisa qualquer.

 
 










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