Aobra arquitectónica que polvilha as ruas do Porto poderá quase parecer anónima, de tão entregue ao esquecimento que está o autor das principais marcas da cidade José Marques da Silva.
Respondendo a esse adormecimento da memória, a Reitoria da Universidade do Porto e o Instituto Arquitecto Marques da Silva promovem, a partir de hoje, uma exposição de arquitectura, concebida sobretudo em fotografias - algumas inéditas -, na galeria do Palácio de Cristal. Teófilo Rego, um dos mais conceituados fotógrafos de arquitectura nas décadas de 50 e 70, expõe muito do seu material, ao qual se adiciona a Fotografia Guedes, a Beleza e o trabalho de Alvão, entre outros.
"A maneira que Marques da Silva teve de fazer a cidade deixou marcas de leitura tão relevantes como as que havia sido deixadas pelo Barroco e pelo Neoclassicismo", afirma António Cardoso, consultor da mostra e especialista em História de Arte.
O autor de edifícios como o Teatro Nacional S. João ou a Estação de S. Bento, influenciado pela Renascença francesa e flamenga, "trouxe de Paris, onde estudou, o 'gozo artístico', que haveria de influenciar a Escola do Porto", sublinha ainda o professor. "Isso traduz-se num sistema extremamente exigente de abordagem do projecto, na grande qualidade de execução, nos elementos quase artesanais, na atenção dada aos sítios e aos materiais".
Reconhecendo a dificuldade em inseri-lo numa única corrente, o arquitecto Manuel Correia Fernandes opta por situá-lo na cadeia contemporânea, entre a Arte Nova, nas décadas 10/20, e a Art Deco, que ilustra as décadas 20 e 30. "Tanto usava uma decoração elegante, não exagerada, como aderia à total ausência de decoração". Seria a resposta pontual de Marques da Silva à corrente mais purista.