"Por detrás do fado de sucesso e negócio esconder-se-ão outros?" Ricardo Pais responde à própria pergunta de forma afirmativa e por isso investiu no espectáculo que estreia hoje, às 21.30 horas, no Teatro Nacional S. João, no Porto - "Cabelo branco é saudade". Directamente da escola das casas de fados vieram Argentina Santos, Celeste Rodrigues, Alcindo de Carvalho e Ricardo Ribeiro.
"Estas pessoas são exemplos do que acontece em Lisboa e que muito pouca gente conhece", diz Diogo Clemente, director musical com, apenas, 20 anos. Acessíveis no circuito das casas tradicionais do género e longe das objectivas mediáticas, este grupo de fadistas pratica a linguagem "mais típica" do fado, defende Argentina. Há quem lhe chame castiça.
"Só se começou a falar em fado castiço por oposição ao fado mais sofisticado. Aliás, este espectáculo não tem nada de particularmente castiço, mas sim de erudito", esclarece Ricardo Pais.
O ambiente cénico, criado por Nuno Carinhas, é simples, despojado e baseia-se na potenciação de cada um dos poucos elementos imagéticos através a luz e da cor. O objectivo passa por dar exclusividade de atenção às vozes e às guitarras e, adianta o director do TNSJ, "recriar a mesma dignidade das casas de fado". Mas, a procura de preservação da pureza estilística transportada por estes artistas não passa especialmente pelos figurinos. "Numa época em que a nova geração está toda no fado encenado, aqui não há cedência alguma pelo facto de estes fadistas estarem em cena tudo acontece no interior da música", acrescenta.
Com base em clássicos como "Volta atrás vida vivida", "Amor é água que corre", "Talvez houvesse uma flor" e, claro, "Cabelo branco" de Henrique Rêgo e Alfredo 'Marceneiro', cantam-se o amor que se perdeu, a distância, a memória, o tempo e a mocidade. Mas, alerte-se, o público "Este não é um espectáculo musical, mas sim um espectáculo de músicas", sublinha Ricardo Pais, onde se exerce "a arte do fado - repetir 'ad nauseam' o mesmo tema". Até à perfeição.