As lojas que agora demos em chamar de tradição, querendo dizer antigas - ainda que fundadas no séc. XX, que já vai ficando para trás, fazendo parte da História-, repletas de requinte e sedução, representavam, aos olhos da cidade que se revia na modernidade da Baixa, autêntico deslumbramento. Nelas se encontravam as novidades. As últimas modas, as mais recentes importações que, em País habituado a ver em tudo quanto vem de fora o supra-sumo do cosmopolitismo, afirmava a própria Civilização.
Tanto a civilização vista nas publicações que cá iam chegando, como a experimentada nas viagens (de quem podia viajar) a Paris, Cidade-Luz e Capital do Mundo. Todavia, a partir da Guerra de 39/45, novas aberturas, a custo, iam permitindo vislumbrar através do muro (não de Berlim ou de Bambu, mas dos preconceitos, da censura, do imobilismo e do autismo do Regime) a nova realidade de produtos, tecnologias, músicas, ritmos, filmes, hábitos, modos de viver e literatura dos Americanos do Norte (os do Sul eram nossos conhecidos e deles aprendíamos pouco).
Lídima representante dessas novas perspectivas sobre o outro lado do Atlântico era a Rádio Porto, da Rua dos Clérigos, 64. Fundada em 1926, dedicava-se ao "comércio de telefonias" e -imagine-se! - "artigos orientais". Chamavam-lhe a rádio dos irmãos Rodrigues, estando um deles, António Rodrigues, gerente da firma, devotada e apaixonadamente ligado à T.S.F. (assim designavam a rádio, como "telegrafia sem fios"). Por isso, além do estabelecimento de venda ao público, a Rádio Porto possuía - se não a mais antiga - uma das mais antigas Estações Emissoras de rádio montadas em Portugal, usando o indicativo CS1RP.
E mais a estação da Rua dos Clérigos possuía estúdio privativo, para a realização de concertos, audições e espectáculos, transmitidos em directo e muito apreciados pela classe média Portuense. Neste capítulo, quer das emissões radiofónicas, quer dos programas transmitidos do estúdio, a Rádio Porto desempenhava um papel histórico fundamental no incremento de forte movimento da Radiotelefonia no Norte do País, independente e criativo (onde isso vai - ó meu S. Pantaleão que nos abandonaste!). Como então - apesar da Ditadura política - a actual centralização totalitária dos meios de comunicação ainda não tinha sido inventada pelo devorismo da capital, existiam seis rádios no Porto, cada uma com a sua identidade, o seu modo de estar, o seu público e a sua programação. E a da Rádio Porto era notável pela qualidade e pelo facto de revelar muitos dos grandes êxitos musicais, cantores e orquestras norte-americanas da época, hoje verdadeiros clássicos.
A razão de tal opção era o facto de a Rádio Porto estar intimamente ligada aos Sfafes por ser agente oficial da famosa marca de aparelhos de rádio R.CA - Rádio Corporation of America (que os detractores logo trataram de traduzir por "Ruídos Com Abundância", referindo os incomodativos barulhos parasitas que afectavam a recepção das emissões - designadamente as emitidas em Onda Curta, a desoras, pela "Voz da América"). Além disso, fornecia todo o género de peças soltas para Radiotelefonia, possuindo uma das melhores oficinas do burgo para a reparação de qualquer marca de aparelhos.