Avoz de Joaquim Massena revela mágoa e indignação. "O Bolhão vai ficar moribundo. Não posso ficar mais tempo calado. É um dever cívico lutar por aquele espaço que ainda está bem vivo". Autor do projecto de reabilitação do mercado, depois de passar, num concurso limitado por convites, pelo crivo de um júri de que fizeram parte Álvaro Siza Vieira e Duarte Castel-Branco, o arquitecto promete que, amanhã, mostrará "o baú do Bolhão". Ontem, à tarde, esperava, sem grande esperança na resposta, que o presidente da Câmara, Rui Rio, lhe dissesse "o que está a passar-se". O pedido de esclarecimento tinha seguido por fax.
"A situação é grave. A omissão também. Sobretudo quando há um projecto de reabilitação aprovado, por unaminidade, pela Câmara do Porto, em 1998, que levou-me, durante dois anos, a andar no mercado. Foi um trabalho feito por uma equipa que mereceu louvor. Teve pareceres de todas as entidades. Entre 1992 e 1998, o Bolhão esteve na minha vida. Aliás, fiz o mestrado sobre o mercado", lembra.
O arquitecto, que elaborou o projecto durante o mandato do socialista Fernando Gomes, garante que desde 1998 que a Câmar tinha sido alertada para a necessidade de se fazerem obras "urgentes" devido a problemas com as fundações.
"O mercado nasceu num local de lameiros, num braço do leito do rio da Vila. Há água a correr sob o Bolhão e, quando se falou na possibilidade do metro passar na zona, defendeu-se que as obras do metropolitano teriam de coincidir com as do mercado. É natural que a construção da estação do metro tenha criado uma barreira aos cursos de água. Mas não posso dizer nada em concreto enquanto não conhecer os relatórios, enquanto não me derem respostas".
O argumento de perigo imimente, dado pela Câmara, para a evacuação dos comerciantes da ala sul do mercado é, para o arquitecto, "pouco claro". "O edifício está todo interligado. Se está em risco a sul, está em todo. Foram feitos relatórios sobre as fundações a norte, no meio e a sul. As obras sempre foram aconselhadas".