Odiagnóstico de problemas numa gravidez é muitas vezes feito já tarde em Portugal, porque mais de um terço das grávidas chega aos serviços de saúde depois do primeiro trimestre. Um adiamento que pode atrasar a indicação para a interrupção da gravidez, a que se deve somar o facto de as ecografias - a grande maioria das quais feitas por convenção no sector privado - "nem sempre" serem "feitas com qualidade".
"Se for bem feita, a ecografia pode diagnosticar mais casos do que actualmente", afirmou ao JN Beatriz Calado, responsável da Divisão de Saúde Materna Infantil e dos Adolescentes da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e desde 1999 coordenadora da Comissão Nacional de Diagnóstico Pré-Natal. No último relatório desta divisão, era mesmo assinalado que "a elevada percentagem de anomalias fetais, designadamente doença genética, encontrada a partir do exame ecográfico impõe a exigência de maior qualidade e rigor nesses exames".
Muitos dos exames convencionados, adianta a especialista, estão a cargo de "médicos que não têm a preparação adequada". Uma situação que se deve não apenas à falta de formação, mas também, em parte, à paragem nos processos de convenções. Sem se celebrarem novas convenções há mais de três anos, os contratos vigentes são "com pessoas que os têm há muito tempo, e nem sempre acompanham a evolução ecográfica".
Beatriz Calado defende antes de mais a revisão das convenções, imprimindo uma "maior exigência na qualidade", mas também prevendo que se "pague um pouco melhor". Convencionadas a custos irrisórios, as ecografias acabam muitas vezes por ser prejudicadas pela necessidade de produzir muito para rentabilizar os equipamentos, como o JN já em tempos denunciara.
Fernanda Jardim, responsável pelo diagnóstico pré-natal na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, alerta por seu lado para a necessidade de manter e alargar os cursos de ecografia fetal, por se tratar de uma técnica que "precisa de treinar-se cada vez mais". Admite que é uma área em que "ainda há muito por fazer" e a que falta uma prática muito simples remeter a responsabilidade dos exames ecográficos aos hospitais.