A pior sensação que os incêndios florestais até agora criaram neste país foi aquela de um sentimento bem português deixa andar. O que, no caso, significa, deixa arder.
Não levem a mal esta expressão aqueles que, arriscando a própria vida e outros até colhendo a morte, têm lutado contra este estado de sítio de um país em labaredas.
Mas ouvindo os cidadãos comuns deste país e aqueles que olham para os incêndios nas repetitivas imagens das televisões, a constatação geral que se ouve é esta já ninguém faz nada por isto.
Não é o discurso da Oposição que transmite esta sensação. Esse terá de ser sempre incendiário para o Governo. É o do povo da rua que, quer se queira quer não, é aquele que, em última análise, faz o escrutínio de quem governa. E se o primeiro pode ser entendido como demagógico, injusto e politiqueiro, o segundo é a razão de ser do sistema democrático em que vivemos.
As aparições na televisão do ministro António Costa, de sentido e propósito pedagógicos, no dizer do próprio, de tão pedagógicas pareciam descontextualizadas e a destempo. António Costa é um ministro politicamente culto e inteligente. Mas, obviamente, não é milagreiro. Como tal, não pode fazer milagres. E se, por um lado, pode ser verdade que o que haveria a fazer, para não haver tanto incêndio este ano, já deveria estar feito há muito tempo, a realidade é que aquilo que tem transbordado deste país em chamas é a terrível impotência para fazer algo mais, no momento exacto, na hora. A garantia do êxito de acções pedagógicas assenta, sobretudo, na prossecução de planos premonitórios. No acto, projectam efeitos desconexos. As palavras do ministro mais pareciam palavras de condolência junto daqueles que viram e sentiram partir os seus entes queridos e os seus únicos bens. "Tenham paciência. Nada mais podemos fazer".