Desde há uns anos que a "cidade histórica" ocupa o centro de gravidade das políticas urbanas adoptadas pelas forças políticas que se apresentam a cada eleição. Ao longo do tempo e dos mandatos, as propostas para a almejada requalificação (e não será por acaso que se fala menos de "revitalização") dos "centros", têm sido muitas e diversas, mas os resultados são quase sempre inversamente proporcionais à magnitude dos problemas. Compreende-se que assim seja, já que um dos maiores constrangimentos ao sucesso dos referidos programas é a carência de meios em geral e de meios financeiros em particular.
Face ao relativo insucesso dos diferentes programas (e, casos de evidente sucesso como é o de Guimarães são excepção) começaram a surgir "poções mágicas" que, como todos os "remédios santos", só produzem efeitos em quem neles acredita antecipadamente e no exacto momento em que são anunciados, já que a sua eficácia é, por definição, nula.
Ora, uma das "poções mágicas" que, ultimamente, surgiram no mercado e com honras de tradução imediata no "Diário da República", foi a ideia das SRU de que a Câmara do Porto reivindica a paternidade. A ideia mobilizou, desde então, muitos outros municípios que se afanaram em criar as suas próprias SRU, mas a breve trecho se verificou que só isso não bastava. Com efeito, para que a "coisa" funcionasse, era preciso incluir na "poção" ingredientes apetitosos que a tornessem mais apetecível. Em boa verdade, não podemos dizer que, até hoje, tenham aparecido grandes ideias quanto a esta matéria e, sobretudo, quando a dimensão do problema atinge graus inusitados. Quando assim é, há que recorrer a argumentos mais incisivos e convincentes. Ora, um desses argumentos e, talvez, o mais adaptado à tradicional cultura portuguesa é o da… proibição. Ou seja, a expressão mais acabada da política conhecida como "ou vai ou racha"!
Nestes termos, e como se viu nestas últimas eleições locais, assistimos a uma verdadeira competição entre forças políticas para ver quem proibia mais, depressa e com mais força a "construção nova", simploriamente identificada com "especulação imobiliária" e contraposta assim à chamada "construção antiga", toda ela ingenuamente identificada com o estimável "património histórico". O raciocínio era simples se o "mercado só se interessa pela "construção nova" e, por isso, não investe no "centro" ou na "baixa" porque é avesso ao "património", administra-se-lhe a "poção mágica", ou seja… proíbe-se a "construção nova". Simples, como se vê!
Ora, uma coisa é "proibir" (que até nem dá grande trabalho) e outra, bem diferente, é criar as condições necessárias (o que dá, de facto, muito mais que fazer) para que as pessoas possam escolher livremente o local da cidade onde querem morar. Ora, a avaliar pela generalidade dos programas eleitorais e, sobretudo, pelo da coligação que ganhou as eleições de 9 de Outubro, a regra nesta cidade vai passar (continuar) a ser a quase impossibilidade de "construir novo". Esta, portanto, a política que foi sufragada por uma maioria muito significativa dos cidadãos eleitores da cidade do Porto. Os cidadãos escolheram, fizeram-no seguramente em plena consciência e, portanto, tudo leva a crer que é isso mesmo que se irá passar, pelo menos, durante os próximos quatro anos.