Luís Henrique Oliveira
Nascentes e poços secos, inexistência de pastagens, stocks de alimentos para animais esgotados e acentuada quebra no olival e na produção de fruta são alguns dos problemas enumerados pelos agricultores minhotos que devem a sua origem à seca que afectou todo o país, problemas esses que, asseguram, persistirão para além do ano agrícola.
Aludindo à situação vivida pelos profissionais da região, o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, Luís Mira, disse que o problema tem vindo a afectar, "em larga medida", as actividades relacionadas com a produção de animais e, por conseguinte, de leite, devido ao "preço mais elevado" que os agricultores tiveram de pagar pelas forragens. Ao afiançar que a situação arrasta-se desde Fevereiro passado, "devendo prolongar-se muito além do final deste ano agrícola", disse que as chuvas que se fizeram sentir nos últimos dias "estão longe de vir a resolver o problema". Partilhando da opinião, fonte do Instituto da Água considerou que a pluviosidade sentida nos últimos tempos nos distritos de Braga e de Viana do Castelo "não foi significativa" para alterar a situação. Precisando que a globalidade das barragens distribuídas pelos diversos sistemas do Minho (Ave, Cávado, Homem e Lima) apresentam valores que se situam aquém da média, disse que a excepção vai para a de Ermal, em Vieira do Minho (ver caixa).
Sobre a questão, Orlando Gonçalves, presidente da Associação de Agricultores do Vale do Lima, cargo que acumula com o de director da Federação de Agricultores do Norte, referiu que as últimas chuvas "deram apenas de beber às moscas e aos passarinhos". Assinalando que as regiões Centro e Sul do país continuam a sofrer com a seca, considerou que, apesar disso, "o Norte foi mais afectado, uma vez que sempre foi abundante em água". A propósito, aludiu à existência de pragas nas culturas de azeitona e de citrinos, situação que, segundo apontou, "nunca se verificou na região" e que deve a sua origem "a um clima propício". Ao considerar a situação vivida pelos agricultores "um drama cujas proporções encontram-se ainda longe de ser conhecidas", disse que o problema tem vindo a traduzir-se, em muitos pontos da região, no próprio abandono dos campos pelos profissionais. "Temendo não conseguir alimentar os animais, muitos foram os produtores que se desfizeram deles, abandonando, mesmo, a agricultura. Alguns foram os que abandonaram as próprias localidades onde viviam, procurando inclusivamente na Galiza o que a terra não tinha para lhes oferecer, agravando, assim, o fenómeno da desertificação", asseverou. A propósito, refira-se que o próprio Relatório da Seca de Portugal Continental tornado público no passado dia 18 considera que as condições de abeberamento dos animais "continuam a ser consideradas graves". O documento acrescenta que a precipitação ocorrida na região Norte foi "pouco significativa para induzir uma melhoria relativamente ao estado de seca que se tem vindo a verificar", assinalando que as chuvas das últimas duas semanas "não alterou de forma significativa o estado das pastagens".
Entendendo a actividade desenvolvida pelos profissionais como "de risco", o presidente da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal, Firmino Cordeiro, disse que aos problemas gerados pela seca "há a acrescentar os fogos, que lavraram por toda a região". Defendendo uma tomada de medidas "urgente" por parte da tutela, esgrimiu "ao desenvolverem a sua actividade, os agricultores combatem a desertificação e, mesmo, os incêndios, pelo que precisavam de ser vistos com outros olhos pelo Governo".