Já lá vão quatro anos após os atentados de Nova Iorque de 11 de Setembro, mas pouco mais se avançou sobre o terrorismo fundamentalista islâmico. Desde então, já aconteceu Madrid, Turquia, Londres, Egipto, Bali e o sempre presente Iraque, e o cenário mantém-se nebuloso as razões que presidem ao fenómeno são mal conhecidas e nem sequer houve concórdia na definição de "terrorismo". Esta será a principal conclusão da conferência sobre "Terrorismo e Relações Internacionais", que ontem começou na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
O negativismo marcou o início da conferência, com Rui Vilar, presidente do Conselho de Administração da Gulbenkian, a dividir as críticas entre a ONU - as "Nações Unidas são, ou deveriam ser, a primeira plataforma legítima para tomar posições estratégicas neste domínio" - e a Aliança Atlântica - "a crise de emergência do terrorismo poderia constituir também uma oportunidade para enquadrar uma verdadeira refundação da OTAN". Mas assim não aconteceu, nem numa nem noutra instituições internacionais.
O responsável pela realização da conferência recordou, a propósito, a 60.ª Assembleia Geral da ONU, em Setembro, em que o nem sequer foi aprovada uma definição de terrorismo. O próprio Ocidente - principal alvo dos terroristas - não consegue uma estratégia conjunta e cuja divisão foi aprofundada, segundo Vilar, pela "intervenção unilateral dos EUA no Iraque". O orador foi menos duro face à União Europeia, mas não muito "Apesar do inegável progresso na cooperação europeia, persistem dificuldades, por ser um espaço ainda fragmentado relativamente às forças da lei e da ordem".
O pessimismo de Rui Vilar não foi, porém, singular. Um dos mais esperados oradores, Gareth Evans, presidente do International Crisis Group, abriu o discurso sem contamplações "O resultado mais visível da guerra contra o terrorismo é, até agora, haver mais guerra e mais terrorismo", frisou o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros australiano. Segundo Gareth Evans, a estratégia policial e militar deu bons resultados com a al-Qaeda, "diminuindo a sua capacidade organizativa", mas não conseguiu impedir a sua manutenção enquanto estrutura "mais inspirativa do que organizacional", chamando a atenção para existência de grupos autonomizados, dando como exemplo as células terroristas londrinas. Além disso, os grupos terroristas mantiveram a capacidade de inciativa.
Para o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros australiano, aquilo que "mais assusta os políticos, o que lhes tira o sono à noite, é a junção de um 11 de Setembro com as armas químicas". Transitando para um novo nível de riscos, Gareth Evans lembrou que "todos nós sabemos o quanto limitada é a nossa capacidade, e sempre há-de ser, de negar o acesso dos grupos terroristas às armas químicas e em particular às armas biológicas, dada a sua natureza. E o mesmo se aplica às armas nucleares".