Depois das duas últimas edições do Festival Internacional de BD da Amadora terem recebido muitas críticas, quer pelas muitas faltas de autores anunciados quer pelos problemas de montagem, a edição deste ano apresentava-se como uma prova de fogo para a organização. Que, diga-se desde já, foi vencida, embora sem conseguir o nível de algumas das edições anteriores do certame.
O primeiro desafio prendia-se com o aproveitamento do espaço, que está melhor do que em 2004, apesar da disposição demasiado labiríntica das exposições e de haver mostras instaladas nas costas dos painéis que definem o espaço, parecendo os autores ter sido 'despachados' para os arrumos. E porque a edição de 2006 volta a ser na estação de metro da Falagueira (Amadora-Este) há que rever com urgência a questão da ventilação, pois o espaço do festival é uma autêntica sauna.
As cenografias escolhidas são de uma forma geral sóbrias e até austeras, notando-se que a época das exposições-espectáculo - de que Angoulême foi o exemplo maior - já passou. No conjunto, falta, sem dúvida, um nome forte, capaz de atrair amantes e simples curiosos, até porque a exposição principal, dedicada ao sonho, em homenagem ao centenário de "Little Nemo in Slumberland", de Winsor McCay, além de demasiado compartimentada (sendo alguns dos 'compartimentos' forçados), foi trabalhada de forma muito aberta, permitindo que quase tudo lá coubesse.
Além das melhorias referidas, impressiona este ano o número de originais expostos, das mais variadas procedências e estilos, o que, paradoxalmente, resulta também da grande abertura dada ao tema central. As raríssimas pranchas centenárias de McCay, bem como os originais de Herriman, Hergé ou Caniff, que poucas vezes é possível apreciar, destacam-se das restantes propostas.
A não perder igualmente algumas das homenagens a Nemo, com as duas pranchas de Frank Pé à cabeça, não só pela sua beleza estética, mas também pela forma como reflectem o espírito da obra homenageada, bem como as dos portugueses Carlos Moreno, Ricardo Cabrita e Susa Monteiro. E, a um outro nível, as retrospectivas de Ferrand e Giardino.