"É preciso um professor para uma substituição na sala 12". A convocatória é feita por altifalante. Contrafeito, um professor de Filosofia dirige-se à sala do 7.º ano para substituir a professora de Matemática. Seguem-se 90 minutos de sudoku, batalha naval, jogo da forca e palavras cruzadas. Vale tudo, desde que se mantenham os cerca de 30 alunos na sala. O modelo de aulas de substituição criado pelo Ministério da Educação (ME) está no centro de uma das maiores agitações em que vivem actualmente as escolas de norte a sul do país.
Fartos da "balbúrdia" em que se converteram as aulas de substituição, os alunos da Escola Básica 2/3 de S. João da Ponte, nas Caldas das Taipas, Guimarães, organizaram um dia de greve às aulas na sexta-feira passada. No local, os jovens diziam-se "fartos" de aulas que "não têm rendimento nenhum" e em que "os professores nos deixam fazer tudo desde que não façamos barulho".
Rui Trindade, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, lamenta que as aulas de substituição "tenham convertido os professores em amas-secas de meninos, pondo em causa a finalidade primeira da sua profissão".
Aquele docente salientou que a aplicação universal da medida apenas serviu ao ME para "mostrar que punha os professores a trabalhar". No seu entender, mais do que ajudar a degradar a imagem profissional dos professores, o ME "deveria procurar que os docentes ficassem mais tempo na escola, mas a promover um outro tipo de trabalho mais útil, como a partilha de experiências e a planificação de projectos".
Do lado dos professores, a revolta é grande e todas as organizações sindicais representativas da classe reconhecem a perturbação que a organização dos horários e as aulas de substituição estão a causar nas escolas. Na verdade, constituem um dos motivos que levaram as grandes federações sindicais a unirem-se para convocarem uma greve conjunta, que se realiza na próxima sexta-feira.