O25 de Abril é o dia de todas as liberdades e mais uma. Até em Barcelona, no país vizinho. Foi esse o dia que Maria João e Eliana escolheram para casar, aproveitando o simbolismo da data para reivindicar o direito a ter, do ponto de vista legal, todas as regalias reservadas apenas aos casais heterossexuais. Corria o ano de 2003 e, nessa altura, Espanha ainda não tinha consagrado na sua legislação a igualdade neste domínio, pelo que as duas mulheres vão agora celebrar novo matrimónio.
Maria João Moreno é natural do Porto, onde nunca viveu. Tem 41 anos, e é na capital da Catalunha que exerce a sua profissão de tradutora e professora de Português. É também em Barcelona que, desde há sete anos, partilha casa, momentos e afectos com Eliana, de 46. Uma portuense e uma brasileira juntas no que, para a sociedade em geral, é tido como a diferença.
A cerimónia decorreu no Município de Barcelona "e foi mais um acto reivindicativo do que outra coisa", diz Maria João, recordando o manifesto então lido por ambas, uma espécie de "declaração de princípios" reclamando igualdade de direitos e oportunidades. "O nosso casamento não teria sentido sem esse teor reivindicativo", insiste.
A propósito da adopção, que a legislação espanhola agora estende aos casais homossexuais, Maria João refere "Não estamos a pensar nisso, mas parece-nos muito bem que qualquer casal tenha esse direito. O que reivindicamos, basicamente, é a equiparação de direitos a todos os níveis e esse é um deles". Matéria em que o reconhecimento legal da igualdade se reveste de especial importância é também a da saúde. "É importante, se alguém tiver de tomar uma decisão urgente acerca de uma operação. Seria uma situação muito delicada nós não podermos defender o que a outra quer", diz .
Maria João nunca sentiu que pousassem em si os olhares da discriminação. "O que não quer dizer que as pessoas não tenham falado ou não tenham criticado, nomeadamente em Portugal", lamenta, acrescentando saber de casos bem diferentes do seu, "de pessoas que sofreram agressões físicas só por andarem de mão dada". Talvez isso se deva ao facto de, até por uma questão de feitio, não ter comportamentos muito efusivos. Mas não se livrou de outro tipo de dissabores. Embora não tenha sentido dificuldades em revelar à família a sua orientação sexual, Maria João teve de lidar com o silêncio do pai, que durou 13 anos. Hoje falam-se, mas não falam do assunto. "Os meus são as pessoas que me estão mais próximas e que têm de me aceitar como sou", conclui.