David Leavitt escreveu sobre Florença e nesse "passeio inigualável" pela mais bela das cidades de Itália (1) pergunta porque razão "tem ela provado ser um destino popular para suicidas", para depois concordar com Henry James, quando ele considerou aquela jóia da arquitectura urbana "um caso delicado tanto para os autóctones como para os visitantes".
Não resisto a citar a forma como David Leavitt inicia o primeiro capítulo " Florença sempre foi um destino popular para suicidas. No Verão de 1993, quando nos mudamos para lá, uma rapariga saltou para a morte do cimo do campanário ao lado do Duomo." O autor prossegue informando-nos que quando lá passou "tudo o que restava dela era uma sapatilha pendurada no cadafalso" e que, segundo o jornal La Nazione aquela suicida "era estrangeira, uma turista, o que não constituía surpresa". O autor dá outros exemplos e, à medida em que progredia na leitura da narrativa comecei, mentalmente a imaginar que tipo de (triste) paralelismo poderia haver entre Florença e o Porto cidade, que também tinha - agora não tanto - o condão de atrair suicidas que regularmente se precipitavam da ponte de Luís I, procurando na morte o fim de todos os desesperos.
A esse respeito recordo-me que era eu um simples estagiário com entrada recente (1966) na Redacção JN, ainda na Avenida dos Aliados, quando, uma bela tarde de Verão, o Germano Silva me destacou para ver o que se tinha passado na Ribeira do Porto. Lá chegado dei com os bombeiros a tapar um cadáver de uma mulher de Penafiel que se havia atirado do tabuleiro superior da ponte de Luís I para o cais, encontrando, está bom de ver, morte imediata. Recolhi os dados que me permitissem elaborar uma nota mas quando cheguei à Redacção e informei o Germano Silva do que tinha acontecido, ele tirou-me todas as ilusões "Não perca tempo, a Censura não deixa passar essa notícia..." Como ele pacientemente me explicou, estava "decretado" que em Portugal as pessoas se não suicidavam e, como tal, não havia lugar a qualquer referência nas nossas colunas. Quanto muito podia dizer-se que as pessoas caiam da ponte; nunca que dela se atiravam ...
Havia, claro, formas de tornear o "diktat" governamental, contando ao pormenor a acção exemplar do "Duque", Deocleciano Monteiro de seu nome, no resgate dos corpos daqueles que caíam nas águas do Douro e, quando se procedia à identificação, acabava sempre por se descobrir que, não raro, era gente de fora da cidade que procurava o Porto para pôr termo à vida. Que me lembre, diga-se em abono da verdade, nunca encontrei um estrangeiro mas, no mais e ao resto, a ponte de Luís I era, quase sempre, o ponto escolhido pelos infelizes inaugurada em 1963, foram escassas as vezes que ponte da Arrábida foi palco destes actos desesperados, pelo que foi em torno da obra de arte construída por Teófilo Seyrind que se concentraram sempre as atenções.
E antes da ponte, como era? Hélder Pacheco, no seu "Guia da Cidade do Porto", conta que anteriormente a 1886, os desesperados optavam ou pelo Passeio das Virtudes ou pela Rua de Restauração, dois excepcionais miradouros da cidade mas cuja altura era suficiente a coroar de êxito as tentativas. De tal forma que a edilidade mandou colocar no local, altos gradeamentos para cortar o mal pela raiz. Porém, na "Toponímia Portuense" do celebrado Eugénio Andrea da Cunha Freitas, encontrei eu a Calçada da Corticeira como "teatro preferido de actos sangrentos e trágicos". Refere ele que na manhã de 28 de Junho de 1846, um indivíduo se suicidou, atirando-se ao Douro do Penedo da Corticeira. "Era vestido com decência, sobrecasaca e chapéu de castor"...