Em 14 de Maio de 1998, a propósito do desvario megalómano, centralista e (por isso) devorista chamado Expo 98, escrevi nas páginas do JN "Quando muito falta para que a maioria alcance o simples direito à qualidade de vida e tudo falta para que outros adquiram o simples direito a viver com decência, gastar centenas de milhões de contos numa exposição que valoriza um bairro de Lisboa é uma afronta. Quando os recursos nela gastos poderiam servir para atenuar as desigualdades regionais e garantir o provimento das necessidades básicas não acessíveis a milhares de portugueses (...), é uma ignomínia. Quando se desbaratam recursos numa ostentação falsa e inútil para a felicidade e o bem-estar dos portugueses, é um crime. Trata-se, acho eu, de uma indignidade cívica, um ultraje às carências da população, uma ofensa à pobreza que, como marca indelével, alastra pelo país. Este é o meu protesto. A minha repulsa. (...) ."
Caiu o Carmo e a Trindade. Alguns patriotas acusaram-me de anti-portuguesismo ao denegrir a "maior obra do século" (sic). Um conhecido situacionista apelidou-me publicamente de "doido" (sic). Outros, pensam que valeu a pena ter "requalificado uma zona degradada de Lisboa!". Os resultados estão à vista melhorou o país? Tornou--se mais próspero e desenvolvido? Melhoraram as condições de vida dos portugueses? Pagamos menos impostos? Somos mais felizes, com empregos garantidos (digo fora de Lisboa) e velhice mais tranquila? Deixo aos leitores o ónus da resposta. Por mim, acho que a megalomania foi inútil. O verdadeiro país nada lucrou.
Preparam-nos agora para obra ainda mais megalómana. A Ota avança. Com ela, os portugueses, como os fanáticos suicidas, atingirão a vida eterna e a felicidade no além. O novo aeroporto é o éden prometido. O paraíso. E as justificações são impagáveis é o progresso, o futuro, a prosperidade universal (cito Eça de Queirós: "Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faça-o exercer essa soberania em meu proveito.")
Ademais, eu, que sou um estúpido provinciano, interrogo-me a obra faraónica, dizem, criará 56 mil empregos. Onde? No Norte, onde grassa a falta de trabalho? Não, na região da capital devorista. Não entendo a lógica. Eu, que sou um parolo da Vitória, interrogo-me: mas o futuro do país não depende de mais ciência e melhores universidades? Mais e melhor educação? De melhor e mais justiça? De melhor e mais eficaz sistema de saúde? De melhor protecção da velhice, com maior apoio aos idosos? Não, o futuro do país depende da magnitude do aeroporto da Ota (cito Oliveira Martins: "A nós sucede-nos que, além de nos faltar o carvão, matéria-prima industrial, nos faltam matérias-primas incomparavelmente mais graves ainda: juízo, saber, educação adquirida, tradição ganha, firmeza no governo e inteligência no capital"). Desde então, continuamos a manter uma capital que, para seu benefício e dos apaniguados que nela circulam, sujeita o país ao vexame de não descolar da cauda da Europa.
Uma capital cujos mentores têm o despudor de atacar as derrapagens do metro do Porto, quando as contas são estas extensão - Porto 37,1 km / Lisboa 36,9 km; custo médio de estação: Porto 27 milhões / Lisboa 130 milhões de euros; e do quilómetro de rede em túnel: Porto 28 milhões / Lisboa 65 milhões (JN 23.11.2005). Como, além de estúpido, sou provinciano, não entendo quem gasta mais (e cito novamente Oliveira Martins: "Um dos fenómenos curiosos em Portugal é o devorar dos homens pelo Governo. Hoje sobem, amanhã somem-se, corridos, desprezados. Porquê? Porque a árvore, seca, apenas tem vida para reconhecer o seu definhar, para desprezar os que no seu pedantismo ingénuo, mais ainda do que na sua corrupção, sucessivamente se lhe seguram aos ramos. Outro fenómeno é a facilidade com que a opinião muda nessas classes directoras da sociedade portuguesa. Como um cata-vento, sobre um pião giratório, batido, movido pela brisa leve, assim anda o juízo dos homens graves. (...) Assim os vereis hoje em solenes relatórios declarar a pátria à beira de um abismo, e amanhã, com igual entono, chamar a Portugal um primor, à sua condição abençoada!"