Polémico e discutido aquando da sua realização, o Porto 2001 continua fiel, cinco anos decorridos sobre a inauguração, aos mesmos predicados de sempre. O legado da Capital Europeia da Cultura ainda é pretexto para que se esgrimam argumentos antagónicos do discurso da "oportunidade perdida", adoptado por Rui Rio desde muito cedo, ao "desbaratamento da herança", como defendem os responsáveis máximos do evento, a ausência de consenso impera.
"Somos muito autocríticos. Mesmo os detractores têm que reconhecer que o Porto é hoje uma cidade muito diferente se o evento não tivesse tido lugar", sustenta Miguel von Hafe Pérez, programador da área de artes plásticas que reparte as culpas na hora de atribuir culpados pela quebra da dinâmica "Não é segredo para ninguém que a cultura está longe de ser um dos vectores fundamentais da actual autarquia, mas se as próprias estruturas não têm capacidade de fazer ver aos responsáveis a mais-valia que deveriam constituir, o melhor é demitirem-se".
Do evento que se propunha mudar a face do Porto e incluí-la no roteiro das principais metrópoles europeias, ficou uma cidade apetrechada no capítulo das infra-estruturas de culturais - da (retardada) inauguração da Casa da Música à reconversão de espaços como o Museu Soares dos Reis, Cadeia da Relação e Teatro Carlos Alberto, entre outros -, mas que nem por isso abandonou o clima de depressão em que se viu mergulhada nos últimos anos.
Concebida como uma prioridade, a criação de públicos não escapa à discórdia. Se a afluência popular às centenas de espectáculos foi indesmentível, capaz de resistir até à 'rábula dos bilhetes', não restam também dúvidas que os resultados do forte investimento ficaram aquém das expectativas. "Cinco anos depois, o que vemos é a mesma maioria que já tinha hábitos culturais a frequentar espectáculos", defende o historiador Helder Pacheco, para quem a promoção do acesso à cultura "não se resolve colocando pessoas de Aldoar a cantar ópera, mas, por exemplo, fomentando o associativismo".
Vereadora do pelouro da Cultura em dois mandatos autárquicos, a deputada socialista Manuela Melo apelida de "verdadeiro crime cultural e um acto de cegueira política" o modo como o executivo camarário actual lidou com o dossiê. "Tivemos o azar de o Porto 2001 ter coincidido com eleições autárquicas. Associaram a Capital Europeia da Cultura a uma cor partidária, quando o que estava em causa era mais do que isso", lamenta, ao mesmo tempo que alude a "uma perseguição política".