No seu belo "Romance com o teu nome", o escritor portuense António Rebordão Navarro (ignorado pelos holofotes do circo literário centralista, justamente por falar dos ambientes do Burgo) evoca-nos expressivamente um espaço que não denomina "fomos até ao jardim público. Pelos carreiros, passavam magalas de mãos balançando, bocas entreabertas; um carro mortuário, largando dois homens profissionalmente lutuosos, subindo as escadas de pedra, parava à porta do Instituto de Medicina Legal; por vezes, desesperados silvos de ambulâncias, dirigindo-se à urgência do Hospital, arrepiavam os ares". E adiante: "na pontezinha sobre o lago, ladeada de hastes de cimento simulando troncos entrelaçados, não andava ninguém, ninguém sequer se aproximava do recinto, de água escura sob folhas boiando". Embora inominado, percebemos tratar-se do Carregal, pois o texto contém referências que o distinguem.
O Carregal está impregnado de atmosfera romântica única no Burgo. Por isso reveste um significado especial no imaginário dos portuenses, tanto pelo desenho dos espaços - onde o lago e a ponte, imitando as ruínas caras a certo revivalismo oitocentista, constituem atractivos especiais -, como pelas espécies arbóreas (grandes coníferas) que o povoam. Projectado em 1897 por Jerónimo Monteiro da Costa, antigo colaborador de Marques Loureiro no Horto das Virtudes, a selecção das espécies terá pertencido a Casimiro Barbosa, também pertencente à Sociedade daquele famoso Horto.
Carregal provém da palavra carrega, planta gramínea das zonas húmidas, charcos ou lameiros que caracterizavam, até aos meados do século XIX, aquele local, por onde passava o Rio Frio, que desagua na Praia de Miragaia. Em razão da insalubridade e irregularidade do sítio e dos terrenos em redor, durante quase um século seria duramente criticada a construção do Hospital de Santo António, mesmo em cima deles. Sem resultado. A custo, metade da obra fez-se.
Para a minha geração, o Carregal (e jamais "Jardim de Carrilho Videira", como, em certa época, a Câmara entendeu baptizá-lo), mais do que um espaço público incomparável, constituiu lugar iniciático da nossa aventura de crescer e usufruir a cidade, descobrindo a nobilíssima arte de ser feliz. A iniciação à vida activa começava por jogar ao pilha, à barra e ao bate-fica nos caminhos a direito. Depois, vinha a fase dos polícias e ladrões aproveitando os esconsos do jardim. Na pré-adolescência entrava-se na fase das coboiadas e assaltos de índios, em que a ponte e o lago desempenhavam a função de cenário dos filmes.
Na etapa seguinte começava um período predador da Natureza e atentatório das regras de civilidade no respeito pelo bem-comum. Era a altura das pescarias no lago, com caniços improvisados e anzóis feitos com alfinetes dobrados e atados em fio do norte. O isco era miolo de pão amassado. Valha a verdade que, com meios tão rudimentares, quem ganhava era a peixaria, que enchia a barriga à custa do nosso pão . Chamava-lhe um figo e ria-se. Mas, de quando em vez, um peixe - velho e a ver mal - distraía-se e, em vez de fintar o anzol, prendia os queixos nele. Era a suprema satisfação, a grande alegria sentir os solavancos da cana. Quando tal acontecia, alguns levavam os cativos para casa e, se fosse vermelho, metiam-no num frasco de picles, fazendo de aquário. Se fosse peixe branco, ia direitinho alimentar o gato que, por sua vez, lhe chamava outro figo. Enfim, infantilidades de uma adolescência sem televisão. Atrasada, portanto. Depois crescemos, mas o Carregal mantinha-se espécie de jardim secreto e santuário das nossas mais queridas referências. Vinha então a etapa final do seu usufruto os primeiros namoros, os primeiros beijos, as palavras de amor ditas sobre a ponte (o teu sorriso, a ternura suave e tranquila do teu olhar, um afago...).