Na semana passada, Hélder Pacheco deixou expresso o quanto anda zangado com a sua e nossa forma de viver nas cidades. Ele manifesta-se contra a anarquia urbanística dos últimos 30 anos, mas se ele fizer o favor de recuar ainda mais no tempo, chegaremos aos primórdios dos anos 60 do século passado, altura em que entrou em vigor o Plano Auzelle, génese de muitos dos "males" que se abateram sobre o Porto.
Aquele urbanista francês implementou uma política de zonamento citadino quando, por essa Europa fora, a mesma técnica tinha sido posta de parte. Lá fora já se havia concluído que marcar zonas geográficas para as funções habitar, trabalhar e divertir era um contributo forte para a desertificação das cidades, mas nós, cá dentro, inaugurámos com pompa e circunstância essa mesma política na planta de síntese do plano, marcou-se, a azul, toda a Baixa portuense e considerou-se que a mesma reunia potencial suficiente para se tornar em Zona Administrativa.
Ali o Município deveria facilitar a instalação do comércio, dos negócios e da gestão da coisa pública e daí até surgirem as famigeradas autorizações de mudança de destino foi um passo. Um exemplo um edifício da Rua de Ceuta com seis andares (esquerdo e direito) para habitação tem, hoje em dia, apenas uma família a morar. Os outros apartamentos foram, a pouco e pouco, destinados a escritórios e, até, sede de sindicatos... Os prédios da mesma artéria tiveram o mesmo triste destino e a zona passou a ser considerada local privilegiado para a instalação de consultórios e banca de advogados, na medida em que, bem próximo, a Praça de D. Filipa de Lencastre funcionava como central de camionagem para as carreiras do Minho.
Outro exemplo dramático para a cidade do Porto foi fruto da decisão da CP ao transferir da estação de S. Bento para Campanhã o termo das linhas do Douro, do Minho e do Norte. Em três tempos, todo o comércio e serviços instalados no núcleo Mouzinho da Silveira/Flores sofreu enorme rombo. É certo que, entretanto, os grandes distribuidores de produtos e alfaias agrícolas se deslocaram para as zonas em que viviam os seus clientes e que a moda dos super/hipermercados também foi chegando à chamada província, mas ainda hoje se lamenta o facto de S. Bento ter sido transformada apenas em local de chegada e partida dos comboios suburbanos.
Acrescente-se a esta política de (mal)tratar uma cidade o facto de ter sido decretado, nos anos 40 do século passado, o congelamento das rendas de casa nas cidades do Porto e de Lisboa. Dez anos depois, os senhorios já estavam sem meios para poder conservar os edifícios. Estes, cujas características construtivas estavam desactualizadas a tal ponto que não tinham sequer uma casa de banho, depressa ficaram sem gente. E, sem gente, uma casa é como uma cidade, um autêntico deserto. É irónico que 40 e muitos anos depois andemos todos a falar no "regresso à Baixa" e que, desde 2001, se façam planos de revitalização do espaço urbano portuense que corresponde à mancha azul desenhada por Robert Auzelle.