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Travestis com medo

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Helena Teixeira da Silva
 

Aprimeira vez dói sempre mais. "A primeira pedra, o primeiro ovo quebrado na cara, o primeiro extintor. Para já não falar nas bocas, que são foleiras, e também doem". Depois, desenvolvem-se carapaças. "O medo não desaparece, mas aprendemos a fazer de conta que está tudo bem". Não há outra maneira de viver para quem vive à noite disfarçado de mulher porque, também por dentro, é uma mulher que sente que é. "Mesmo se a sociedade continua a querer tapar os olhos e encontra no insulto a única forma de lidar connosco, os travestis".

Valéria de Oliveira tem 22 anos, uma sensualidade minuciosamente esculpida num corpo de quase dois metros, que exibe temporariamente na Rua de Gonçalo Cristóvão, e um "medo terrível" de ser atacada por miúdos idênticos aos que assassinaram, no fim-de-semana passado, um transexual, no Porto. Já foi assaltada e já foi raptada. "Sempre por rapazes entre os 15 e os 18 anos. São muito piores que os homens maduros", garante. Por isso, arrumou a mala e vai para a Alemanha. "Só volto quando Portugal superar a crise e ganhar respeito pelas pessoas. O país, e sobretudo esta cidade, está muito pior em termos de segurança e pior na educação".

Patrícia, ainda fragilizada pelo tratamento facial de metacril (variante do botox), apanhará boleia na viagem, e corrobora. "Nunca ninguém defende um travesti. Nem sequer a Polícia, que só aparece quando não é precisa". E não podem andar armadas. "Aí, a Polícia já aparece", ironiza. "Se um rapaz possui uma arma branca para sua defesa ninguém se inquieta, mas se é uma de nós, já somos consideradas marginais".

Só há "um truque", que nem sempre é eficaz "Ficamos perto umas das outras. Se aparece alguém juntamo-nos logo". A estratégia será generosa, mas nem todas alinham no movimento. Filipa Santos, 21 anos, recusa-se. Passa da uma da manhã e ela está ali, indiferente ao frio e ao resto, sozinha. Pelo menos, aparentemente. "Se for preciso - e nunca foi -, o meu namorado aparece", assegura. "Nem sequer uso navalhinhas, o que não quer dizer que não tenha medo. Tenho medo, claro, mas agora estou sobretudo triste pela morte macabra de uma amiga que não merecia o que lhe fizeram.".

Cansada da "falta de segurança e de respeito que existe na cidade", Valéria de Oliveira, 22 anos, decidiu ir viver para a Alemanha

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