Pára-se o carro na berma da Estrada da Circunvalação, no Porto, e não é difícil encontrar o carreiro que conduz às ruínas da antiga Companhia do Cobre. Uma tábua serve de ponte para atravessar um rego de água. Ultrapassada a fachada do edifício, o cenário é assustador lixo, seringas, muitos pneus, peças de automóveis e um poço profundo, cheio de água imunda, mas sem qualquer protecção. Ao lado, um colchão e uns plásticos sujos. Grande parte da fábrica já foi arrasada, mas subsistem alguns recantos protegidos, que servem de casa para sem-abrigo, marginais, toxicodependentes.
Um espaço à imagem da cave do decrépito edifício inacabado, na Avenida de Fernão de Magalhães, onde foi espancado até à morte Gisberto, 45 anos, brasileiro, travesti, toxicodependente e sem-abrigo. Também ele procurou guarida nas muitas fábricas abandonadas, casas devolutas e prédios inacabados da cidade do Porto.
Os exemplos são vários. Em comum, a degradação. Como numa antiga fábrica de curtumes, na Rua Direita de Francos, mesmo junto ao acesso pedonal sobre a VCI. As entradas são muitas. Ainda há a chaminé em tijolo da antiga unidade e algumas edifícios mantêm-se com telhado. Nas paredes, há grafitos. Numa das janelas, um maço com meia dúzia de cigarros. O dono terá saído por momentos. Na parte mais interior da antiga fábrica, há uma habitação improvisada. No fio que serve de estendal há algumas peças de roupa e um cobertor. Não há ninguém por perto.
No outro extremo da cidade, foi preciso rebentar com os blocos de betão que entaiparam o enorme edifício inacabado na Rua de Santa Justa, perto da Areosa. A chuva inundou os corredores de acesso, mas já houve quem fizesse um carreiro com blocos de betão, mesmo até à "janela" de entrada. Na fachada voltada para a Rua do Professor Duarte Leite, duas janelas, lá no alto, estão tapadas com plásticos. Mais dois apartamentos improvisados. Cá fora, o matagal esconde armadilhas perigosas e propícias ao acidente. Apesar disso, a entrada está escancarada.
Para entrar na antiga fábrica Mário Navega, no Freixo, é preciso percorrer um pedaço de linha ferroviária desactivada e saltar um muro. As restantes entradas foram muradas. Os blocos ainda "cheiram a fresco". Nauseabundo é o odor nos destroços da antiga Fábrica de Lanifícios Lordelo, na Rua de Serralves. Mas também ali há sinais de vidas desfeitas que se escondem em escombros.