"Há alguma coisa para comemorar na Casa da Música?", questiona, irónico, Joaquim Barreiro, da produtora de espectáculos Ritmos, responsável pelo Festival de Paredes de Coura. "Não há nada para comemorar, porque a programação, que se exigia de excepção, não está a resultar. Não valeria a pena criar um acontecimento quando durante o ano se limita a concorrer com o Coliseu, o Hard Club, o Sá da Bandeira".
O tom, crítico, é partilhado pela maioria dos músicos e programadores culturais ouvidos pelo JN na véspera do primeiro aniversário da Casa da Música (CM), que será celebrado sem programação especial e em silêncio. O projecto continua indefinido o orçamento triplicou; a obra continua por concluir (ver caixa). E apesar de já ter sido constituída a Fundação, o equipamento continua a funcionar como sociedade anónima. A administração e a direcção artística não se pronunciam sobre o aniversário.
"Ponderámos a possibilidade de festejar a data, mas optámos por fazê-lo de forma mais ligeira abrindo as portas da Casa às pessoas, permitindo que a percorram livremente", esclarece Paulo Sarmento e Cunha, da Comissão Liquidatária. E explica a opção "Por um lado, porque estamos na Páscoa, altura em que as pessoas têm outros hábitos culturais; por outro, porque a Fundação ainda está numa fase de arranque e a estudar o que poderão vir a ser os próximos anos". A transferência da gestão do edifício, da programação e dos funcionários, ainda a cargo da Sociedade Porto 2001 SA, para a Fundação deverá ocorrer dentro de dois meses.
Os programadores culturais reprovam a desvalorização da efeméride, mas dizem-se pouco surpreendidos. "Ficaria mais espantado se criassem um acontecimento em torno da data e depois voltassem a uma programação que está longe de ser constante e muito longe de ser, como prometido, para todas as músicas", critica o músico João Vieira, DJ Kitten. "A CM parece estar apenas preocupada com o permanente sair e entrar de gente".
Rui Reininho, vocalista dos GNR, concorda "Não quero pensar que a CM é tão inútil como o edifício transparente, mas a ordem de prioridades continua invertida: deveriam preocupar-se primeiro com a música, razão pela qual foi construída, e só depois com o mobiliário, os políticos, os financeiros e os gestores". E acusa: "É lamentável tanto dinheiro investido para tão pouca produção própria".