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Ficamo-nos ou vamos a isto?

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Alberto Castro, Professor universitário
 

Nos últimos trinta anos, o país habituou-se a esperar que o Norte o ajudasse a sair das dificuldades económicas em que, ciclicamente, íamos caindo. Uma combinação de medidas de política económica, investimento público, melhoria da conjuntura internacional e dinamismo empresarial nortenho foram sendo capazes de dar conta do recado. A actual situação é, por isso, não apenas diferente como atípica. Desde logo por o governo português ter, agora, muito menor margem de manobra, nomeadamente em termos de manipulação da taxa de câmbio, que anteriormente. Também a concorrência internacional é, hoje, mais aberta e intensa do que era há 10 anos, para não recuar mais. Finalmente, o Norte que costumava ser o motor da recuperação e, mais ainda, que parecia encontrar nas dificuldades um factor de motivação, está, desta vez, no centro da crise, aparentemente incapaz mobilizar quer os agentes económicos, quer os actores políticos e sociais. Daí até à tentação de entregar a resolução do problema nas mãos do poder central vai um pequeno passo, já percorrido por alguns, que reclamam investimento e ajuda públicos. Na sua infinita misericórdia, sensível ao problema, o governo anuncia hoje que negociou por nós, e para nós, um investimento estrangeiro, amanhã que vai fazer mais uma infraestrutura e depois de amanhã que dará início a mais um programa de formação para os desempregados. Iludido, conclui que só ele será capaz de resolver os nossos problemas. Vai daí, centraliza mais uma agência pública, certamente por assim tornar a afectação de recursos mais eficaz! Aturdidas, algumas vozes ainda reclamam, mesmo correndo o risco de serem considerados pobres e mal agradecidos. E assim se vai perdendo aquela que era uma virtude desta região a de ser capaz de resolver os seus problemas e, nesse processo, contribuir para resolver os do país.

Não me interpretem mal. Não estou nem a negar méritos à política pública, nem a recusar a utilidade de alguns dos investimentos anunciados. O que eu estou a querer dizer é que o Norte se está a descaracterizar ao abdicar de ter um pensamento estratégico não apenas para a Região, mas também para o País. Com isso perde, em primeiro lugar, o País.

E, no entanto, não tem que ser assim. No Norte está localizado mais de metade do potencial científico nacional (avaliado pelos resultados que se for pelo orçamento é muito menos…) e a maior universidade do país. Nesta região continuam a ter origem mais de 40% das exportações portuguesas e nela estão sedeadas algumas das empresas privadas mais importantes. Continua a ser a região mais jovem do país. Com a nova direcção, a CCDRN parece querer readquirir o seu papel enquanto promotor do pensamento estratégico sobre a região. Liberto do governo do seu partido, Rui Rio aparenta ser capaz de dar à Junta Metropolitana do Porto uma outra capacidade de acção. No Minho e em Aveiro, a Universidade impulsiona o empreendedorismo de base tecnológica. O potencial turístico do vale do Douro está ainda por explorar. Ao mesmo tempo, o vinho daquela região recebe as pontuações mais altas, seja na versão "de mesa" ou como vinho "do Porto". Os partidos políticos agitam-se, renovando os seus dirigentes regionais. No associativismo e na direcção das empresas, ainda que timidamente, despontam novos protagonistas. O FCP volta (eu sei, "prognósticos só no fim do jogo", mas arrisco) a ser campeão. Então, o que falta? Vontade, de falarmos uns com os outros (e não cada um com o poder central) e desenharmos um processo comum. E um pretexto ou projecto mobilizador. Dou uma sugestão a construção de uma grande plataforma logística de apoio à internacionalização. Um projecto sempre adiado. Talvez agora possa ser de (a) vez!

Alberto Castro escreve no JN, semanalmente, às terças-feiras.

 
 










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