Matosinhos quer ter um "museu de arquitectura". Desde há longa data. Claro que é bom que haja quem se interesse por arquitectura para além dos próprios arquitectos e das suas associações representativas! Claro. Por isso, é bom que pessoas e instituições, públicas e privadas, órgãos de Estado e de Governo, seja ele central, regional ou local e, enfim, cidadãos e cidadãs, e cada um a seu modo, também o façam. Que todos se interessem por essa "bela arte" que tanto interessou tantos ao longo da história, só nos pode valorizar a todos como país, como povo e como cultura que tão bons exemplos deixou por esse mundo fora. Claro. E até há muitas maneiras de o fazer. Mas há, sobretudo, um modo de cultivar a boa arquitectura que vale mais do que todos os outros que é, exactamente, promovendo-a e fazendo com que ela se faça ou, pelo menos, não lhe colocando obstáculos. Ainda por cima se a arquitectura é coisa de interesse público, como a lei o reconhece e também parece estar assumido pela generalidade dos cidadãos, sobretudo quando praticada como arte e não como negócio! Infelizmente, talvez até seja este o modo mais comum de a praticar, mas, neste caso, é legítima - pelo menos - a dúvida, sobre se estamos perante uma actividade genuinamente artística ou apenas perante a actividade de artistas de outras artes e que só aparentemente são belas! Também neste caso se deve saber distinguir o trigo do joio.
A arquitectura é, em qualquer caso, "o espelho mais fiel duma sociedade" e é por isso que quando viajamos, a primeira coisa que procuramos é a arquitectura dos sítios e dos lugares que queremos conhecer, traduzida nas suas casas, nas suas cidades, nas suas paisagens e na forma como todas são usadas. Mas, para isso, não procuramos museus. Simplesmente, vivemos a cidade! É que a arquitectura é uma arte pública, ainda que nem sempre possamos viver a sua dimensão funcional que está fundamentalmente expressa no seu interior que constitui a sua componente mais privada mesmo quando se trata dum edifício público.
Com isto, não se pretende questionar a validade ou até a necessidade dum "museu de arquitectura". No entanto, sendo um facto que a arquitectura é uma arte pública, seria útil saber por que razão é que se pretende museificar uma coisa que, sendo pública, está sempre e por definição, ao dispor de todos, do único modo que é possível e desejável que esteja que é no seu próprio meio?
A verdade, porém, é que é já recorrente o anúncio da criação dum "museu de arquitectura" pelo Município de Matosinhos, sem que, no entanto e até hoje, se tenha feito um pouco mais de luz sobre tal "ideia" que até já tem terreno, projecto, financiamento e espólio, faltando, apenas, o agréement da ministra da Cultura. Este, no entanto, por certo que não faltará! É que, com tanta disponibilidade, só faltava mesmo que faltasse o mais fácil, ou seja, o dito agréement. Virá, com certeza, porque a ideia parece estimável, mas seria bom que, antes de mais, se soubesse com rigor o que é, afinal, o dito "museu"!