A designação de "meninos do sótão" ainda é uma realidade para muitos autistas. São vidas construídas à sombra do mundo, onde pais e familiares os escondem e se afundam com eles, num turbilhão de incertezas. No distrito de Braga são mais de 30. Mas podem ser mais, votados ao isolamento por incompreensão ou erros de diagnóstico. Há uma associação que lhes quer servir de farol e ainda não conseguiu, por questões burocráticas.
Foi constituída como um núcleo da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA) do Norte, recebeu uma sede do presidente da Junta de Gualtar, mas ainda não vingou. "Falta um parecer da Segurança Social", explica o seu presidente, Mário Relvas, pai de um autista de 18 anos.
A ideia seria transformar o espaço de uma assentada só, com uma obra única. O organismo estatal ainda não mandou a documentação com os itens a cumprir, atrasando a intervenção aos casos que vão surgindo. "Recebo telefonemas de pais, em profunda depressão, porque não sabem como ajudar os filhos", conta.
A APPDA Norte tem, em Gaia, um centro residencial com uma lista de espera imensa. Uma delas é de Braga e deverá ter prioridade sobre as demais. O João (nome fictício) está numa instituição bracarense, mas a entrada na puberdade apressou a necessidade de o transferir.
"Há que pôr fim aos tabus. Os autistas têm necessidades sexuais como toda a gente. Simplesmente não sabem que não o podem mostrar em frente a outros. Há que os ensinar e saber lidar com isso", remata. O núcleo pretende, assim que puder, seguir a APPDA Norte e disponibilizar um local para reunir com os pais, um centro de actividades ocupacionais e um espaço de diagnóstico.