Q uando hoje, pelas 22 horas, Daniela Mercury cantar o sucesso "Nobre vagabundo", no Estádio do Calvário (União Desportiva Valonguense), vai ter em palco a companhia de Patrícia Santos, uma jovem surda que vai acompanhar gestualmente a canção.
Todavia, "a ideia não é traduzir a canção para a língua gestual", explica Patrícia através da intérprete Marisela. Na prática, vai "mostrar a música, a letra, sentindo o ritmo, com uma interpretação muito pessoal".
A ideia de Patrícia participar nesta iniciativa partiu, nas palavras de Armando Baltazar, presidente da Associação de Surdos do Porto, "na coincidência de há sete anos a jovem ter participado no intervalo do concurso "Miss Surda 99", precisamente com este tema". E desenvolve "Como moro em Valongo e há muito vi os cartazes a anunciar o concerto da Daniela Mercury, achei que seria uma oportunidade única para chamar a atenção para o muito que ainda falta fazer no nosso país em relação à comunidade surda". E desabafa: "É triste ser-se surdo em Portugal".
Patrícia Santos, de 31 anos, partilha da mesma opinião e relembra que "só aos 16 anos é que teve o primeiro contacto com a língua gestual". E recorda o "muito sofrimento" porque passou. E é peremptória "É preciso começar gradualmente a pressionar para a necessidade de uma aprendizagem precoce, porque infelizmente os pais perdem muito tempo a correr de médico para médico sem obter resultados práticos para a necessidade das suas crianças".
Para esta formadora de língua gestual, que se divide por três estabelecimentos de ensino, a oportunidade de partilhar o palco com a cantora baiana vai servir, sobretudo, "para mostrar partes da cultura surda, que sentimos o ritmo e que gostamos de nos divertir tanto como o público em geral".