Sílvio, Sandro, Ana, Amílcar ou Manuela. Tanto faz. Não são estes os nomes deles. São cinco entre mais de mil. Anónimos, diz o cartaz. Adictos, dizem eles. "Em recuperação só por hoje". Depois de ontem, de anteontem, do tempo que calha a cada um e todo o futuro que vem pela frente, é uma promessa.
A droga, contam-na no pretérito perfeito. E festejam esse tempo verbal - com água, sorrisos e música, alguns ares de esforço e cigarros - no descanso por horas perturbado do seminário de Vilar, no Porto. Estão "limpos". Nota-se-lhes na alma. Fora daquele retiro, são "normais". Defina-se "normais" gente como todos, advogados, motoristas, empresários, médicos, pedreiros, desempregados. Pais, filhos. Avós. Heterossexuais, gays. Limpos.
Se os nossos nomes são portugueses, é um acaso. Com o Sol a pôr-se divinamente num Douro espraiado em pano de fundo, as nacionalidades misturadas na 23ª Convenção Europeia de Narcóticos Anónimos confundem-se. São mais de vinte, o encontro é sem nomes, ou não fosse a 12ª das "12 Tradições" que gerem o regresso à vida o elogio da não identificação. Sílvio debita-a - é um dos códigos, como chamar "salas" aos encontros de partilha e "irmandade" aos grupos - sem se dar conta. "O anonimato é o alicerce espiritual..."
Será preciso dar o nome para contar ao mundo que é possível aprender a viver sem droga? E gostar? Os "NA" acham que não. Ana, na casa dos 30 e livre há "11 e meio", serve um pouco de porta-voz. A comunicação é, para ela, um defeito de formação. Explica que nos NA, dizer "recuperado" está proscrito. O processo é diário, contínuo, acaba com a morte. Em surdina, Amílcar, ou Sandro, ou mesmo Manuela, admitem. Houve - há - dias difíceis. "Claro que apetece!" Assumir é outra palavra-chave. Porque proscrito está também o álcool, a primeira droga para muitos deles. E a que "está mais à mão". "Nunca" é a garantia que vem a seguir.
Sílvio desvia a conversa para o ambiente à volta. "A festejar a recuperação". Há uma criança que dribla uma bola barulhenta, outra que sorri no regaço da mãe. Há um beijo apaixonado, uma mão que não larga outra, duas que se juntam em palmas, uma canção que jorra dos altifalantes da esplanada. É a recompensa para o esforço de juntar no Porto "adictos em recuperação" de demasiados países.