José Saramago considerou "hipócritas" as reacções contra o escritor alemão Günter Grass. Em causa está a revelação que o autor de "O Tambor" fez, no passado dia 12, assumindo que, aos 17 anos, integrou as Waffen SS, unidade de elite de Hitler na II Guerra Mundial (ver cronologia). Saramago é o primeiro escritor português de vulto a manifestar apoio a Günter Grass.
"Parece-me que houve uma reacção hipócrita de muita gente que não consulta a sua própria consciência", afirmou o escritor português, numa entrevista publicada ontem pelo jornal espanhol "El Pais".
Questionado sobre a sua própria opinião acerca do passado de Günter Grass, José Saramago - que tal como o escritor alemão foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura - disse que, primeiro, ficou "perplexo. Nunca tinha pensado que Grass pudesse ter estado nas Waffen SS e muito menos como voluntário". Saramago também considerou "indigna e infame" a insinuação de que Grass só fez a revelação para promover o seu mais recente livro - a autobiografia "Ao descascar a cebola", com edição marcada para 1 de Setembro -, lembrando que, na altura, o autor tinha apenas 17 anos. "E o resto da vida não conta?", questionou José Saramago, que lança, no dia 16 de Novembro, o seu próximo livro sobre memórias de infância, intitulado "As pequenas memórias". "Que juiz pode dizer que uma confissão vem demasiado tarde? A verdade é que o admitiu, fez a sua confissão", acrescentou.
Questionar a ingenuidade
Na autobiografia de Günter Grass, disponibilizada em Portugal pela Editorial Presença, o escritor revela que, "educado em Danzig Volksschule e Gymnasium, aos 17 anos, integrou a Juventude Hitleriana, chegando a ser detido na Checoslováquia". Grass já afirmou que a confissão de ter pertencido às Waffen-SS não é o tema central da sua autobiografia, mas antes as dolorosas perguntas de fundo sobre a sua "ingenuidade" de jovem nos tempos do nacional-socialismo de Adolfo Hitler.