Uma coisa é vender a força de trabalho e outra, bem diferente, é vender o próprio corpo. Vender o próprio corpo, seja por que razão for, é, em qualquer parte do Mundo, uma forma de prostituição. A prostituição poderá não ser crime em todo o Mundo - e em Portugal não é -, mas promovê-la, colaborar e "lucrar" com ela, é.
Profanar ou, de qualquer forma, dar aos símbolos da comunidade em que se vive um tratamento ou um uso desrespeitoso, indigno, degradante ou simplesmente boçal ou ignorante é, também, uma forma de prostituição e merece a repulsa e a condenação dos cidadãos, que, por isso, têm o direito e o dever de proceder à denúncia, ao repúdio e à condenação de tal acto.
Não ter a inteligência do que se faz nem a noção do significado dos actos que se praticam é sinal de ignorância e de incapacidade para entender a vida e os valores que significam viver em comunidade, sobretudo quando o que se faz é feito em (claro abuso do) nome ou em (ilegítima ou pretensa) representação dessa mesma comunidade.
A vergonha é um sentimento que ocorre quando se está na presença de um acto, duma coisa ou de um facto que tem a ver com tudo isto e põe em causa a dignidade individual e colectiva que é própria de gente que se respeita. E, diz o povo, "quem não se sente não é filho de boa gente".
Isto e muito mais foi o que me ocorreu quando, há dias, vindo dos lados do Palácio da Justiça e me dirigia para a "baixa" portuense, me senti barbaramente agredido pela visão absolutamente inimaginável do que, até então, sempre considerei ser o respeitável e nobilíssimo ex-libris da minha cidade e que julgava a coberto de quaisquer malfeitorias ou indignidades do tipo da que tinha na minha frente a Igreja e a sua inseparável Torre dos Clérigos embrulhadas, ambas, numa brutal e absurda embalagem miseravelmente comercial! Fiquei para ali parado, um ror de tempo, não querendo acreditar no que estava a ver e na ingénua esperança de que um Cristo justamente enraivecido saísse duma daquelas estreitas ruas que para ali confluem e varresse com a violência que a História regista, os vendilhões daquele templo, para quem tudo, afinal, se pode trocar por dinheiro!