Entre o jovem desconhecido que exibiu nervosamente a uma plateia pouco dada a inovações estéticas a sua obra de estreia e aquele que é hoje um dos mais aclamados realizadores do cinema de autor contemporâneo distam 75 anos. A 21 de Setembro de 1931, em pleno Congresso Internacional da Crítica, "Douro, faina fluvial" marcava o início de uma carreira tão fulgurante quanto singular a de Manoel de Oliveira
O rótulo de 'subversivo' não tardou a ser apodado a um filme que recusou embarcar no folclorismo ruralista e no ideário oficial de exaltação nacional então dominantes, preferindo expor com uma então inédita crueza as árduas condições de vida em que labutavam os habitantes da região. "Uma vergonha mostrar aos estrangeiros aquelas mulheres esfarrapadas com carretos de carvão à cabeça, de pé descalço... aquelas nojentas vielas do Porto... aqueles prédios leprosos do Barredo", sentenciava a circunspecta Imprensa da época, receosa da alegada "má imagem" para o estrangeiro que o documentário poderia transmitir.
"Todos os meus filmes começam mal", gracejou ontem, ao JN, Manoel de Oliveira, instado a recordar as pateadas da assistência, entrecortada, porém, pelos aplausos sinceros de nomes como Pirandello, Régio ou Unamuno.
Três quartos de séculos decorridos, Oliveira não renega a sua obra de estreia. A tal ponto que, em 1994, fez uma nova incursão no documentário, desta vez com uma banda-sonora de Emmanuel Nunes "Hoje, o filme é um documento extraordinário. Se lá formos [à Ribeira do Porto] não vemos nada. Tudo desapareceu. Só vemos uns barcos turísticos a navegarem para cima e para baixo. Até a geografia dos socalcos é diferente".
As alterações introduzidas não trouxeram apenas um amaciamento das condições de vida. A "alegria entre a população", detectada pelo realizador durante as filmagens, deu agora lugar a uma contenção que o próprio atribui ao facto de "as pessoas estarem hoje mais fechadas, viradas para dentro".