Januário Godinho foi um dos maiores arquitectos portugueses do século XX. A referência sistemática à sua extensa obra é a prova da sua dimensão como criador e construtor. Alguns dos seus trabalhos são mesmo obras de referência da arquitectura europeia daquele período. Portuense de formação, coração e vivência, projectou obras de todas as dimensões, de simples casas a palácios e equipamentos de todo o tipo.
Foi um construtor que, como poucos, soube levar muitas das obras que concebeu à quase perfeição, exercitando com conhecimento profundo o jogo dos materiais e das estruturas, assim como dos demais elementos que dão expressão material à arquitectura. Personalidades como a de Januário Godinho são raras e não há sociedade que, ciente dos seus valores, aceite prescindir da mais simples das suas obras como elo importante da cadeia que constitui o acervo patrimonial artístico da comunidade a que pertence.
O contrário, é desbaratar património e tornar incompreensível uma parte da história das nossas cidades. Por isso, a defesa destes valores constitui obrigação inalienável de quem tem por missão, zelar pelo bens de interesse público que constituem o património que é de todos e que temos obrigação de entregar, preservado e, se possível, enriquecido, a quem nos sucede neste Mundo.
Ora, essa obrigação está iniludivelmente a cargo dos poderes públicos que nos governam porque para isso foram eleitos. No fundo, as grandes arquitecturas são como os grandes homens não se medem aos palmos! Dizia o mestre Fernando Távora que tão ou mais importante do que conservar o património é fazê-lo; mas, sabendo nós quão difícil é fazê-lo, mais difícil se torna, ainda, compreender quão estúpido é destruir o que já está feito! Mas é precisamente isso que, ultimamente, tem acontecido com edifícios notáveis de autores notáveis como foi o caso recente da demolição de belíssimas obras de Januário Godinho e de Agostinho Ricca, ambos arquitectos notáveis da cidade.
Demolir é destruir. Mas há muitos outros modos de destruir património e de apagar a nossa memória colectiva. O mais usual (mais barato e mais fácil), é abandonar e deixar degradar até à ruína, edifícios, conjuntos arquitectónicos e outras estruturas construídas, esvaziando-as de conteúdo e sentido como acontece, por exemplo, com a maior parte do centro da nossa cidade que dia a dia se apaga independentemente da importância dos inúmeros exemplares arquitectónicos que o integram, tenham ou não, autor identificado.