No país em que eu gostaria de viver, todas as auto-estradas teriam portagem. E, quando digo todas, convém acrescentar que seriam poucas. E seria assim porque o número de dependentes do alcatrão seria pequeno. Os habitantes das cidades médias teriam transportes públicos rodoviários de excelência. Os habitantes das grandes áreas metropolitanas teriam boas e amplas redes de metro, complementadas por cómodos e rápidos sistemas de comboios suburbanos, para viagens mais longas. O transporte de mercadorias de longo curso far-se-ia por comboio, por navio e por avião de carga. O espaço livre nas estradas seria mais do que suficiente para tudo o resto.
O problema é que o país em que eu vivo não tem nada a ver com o que atrás ficou dito. No país em que eu vivo, utilizar o transporte público é visto como sinal de pelintrice, coisa de pobre. O automóvel é o que está a dar, mesmo para quem é só remediado. Mas não é só um problema de mentalidade. De facto, e com a excepção de quem more ao longo das novas linhas de metro, como se poderá criticar quem opta pelo automóvel em detrimento de transportes públicos de má qualidade, muito lentos e desconfortáveis? No país e na região em que eu vivo, o investimento no metro, se voltar a haver, será sempre a conta-gotas. Basta olhar para o Orçamento de Estado para 2007 para perceber as diferenças 16 milhões para a rede portuense, 80 milhões para a rede lisboeta.
Por outro lado, no país em que eu vivo, o que conta é a estatística. Ou melhor, a média estatística. E graças a ela ficamos por exemplo a saber que temos, aqui pelo Litoral Norte, um nível de vida dir-se-ia de finlandês, país que tanto agrada ao nosso Sócrates. O PIB 'per capita' é fabuloso. E o nosso índice de poder de compra concelhio do melhor que há. Confusos? Traduzindo para a linguagem com que se compram os melões, esta lengalenga significa que, em média, os Fulanos que fazem estas contas acham que temos dinheiro que chegue e que sobre para governar as nossa vidinhas e que ainda sobra para pagar o cafezito da manhã, antes ou depois de pagar a portagem. O que eles não explicam é que isto também significa que, por cada café que eu tome a mais, o leitor corre o risco de tomar um a menos. Mas disso não é bom falar, que complica o raciocínio.
Como no país em que eu vivo o que conta é então a média estatística, ou seja, como ficou provado com esta treta dos cafés, a estatística aldrabada, há auto- -estradas com portagem e outras sem. Sendo que, agora, as "sem" passam a ser "com". Mas só se ficarem perto do Porto. Ou, dito de outra forma, se ficarem bem longe de Lisboa ou do caminho de férias dos lisboetas. Acho que é uma espécie de castigo por ainda trocarmos os bês pelos vês e, com isso, darmos cabo das médias estatísticas dos exames de Português.