"Quem não vê bem uma palavra/ /Não pode ver bem uma alma".
Eo que será uma palavra? Um pedaço de língua. E a língua? O elemento fundador de uma cultura. Tão simples quanto isto. A alma de um povo. Como acima dita Fernando Pessoa. E ensinar a ver bem as palavras que fundam a língua portuguesa é aquilo a que se propõe o Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo, no Brasil. Uma obra magnífica que deverá inspirar outra semelhante em Portugal. Afinal, o sítio de onde a ideia deveria ter partido…
Inaugurado em Março, na recuperada Estação da Luz, plataforma ferroviária da maior cidade brasileira, o Museu da Língua Portuguesa oferece um festival de sensações a partir das simples palavras. E conta ao Mundo como pode uma mesma língua ser tantas e tão diferentes ao mesmo tempo. A ambição dos seus criadores é, de resto, universal o espaço é "para todos os falantes do Português, dos cinco continentes e dos oito países que o falam". Cada um à sua maneira.
E porque de um repositório de letras unidas em sentidos se trata, a primeira revelação do Museu é uma árvore de palavras metálica de 16 metros, encaixada entre dois poços de elevadores panorâmicos. Tem nas raízes palavras do indo-europeu, um testemunho de seis mil anos. E nas folhas, nomes de objectos ditos à maneira de hoje. Em Brasileiro, uma das línguas mais recentes do Planeta, mas também uma das que busca raízes num dos idiomas mais antigos da humanidade.
O apeadeiro seguinte é o topo do edifício inicialmente construído para albergar os escritórios da companhia férrea brasileira. O terceiro andar e inapelavelmente o mais fascinante. Antes de mais, porque nos transporta do início dos tempos até aos descobrimentos, acompanhados pela mestria de Luís de Camões. "Imos buscando as terras do Oriente", ou o poder da linguagem para a humanidade. Do Português de Portugal ao outros, um filme rápido mostra uma sucessão impacientes de imagens e sons. A língua como património. Como pátria. Seja de que povo for. E a voz de Chaplin a dizer a última frase de "O grande ditador". Ou a de Gandhi gritando "Não" ao império britânico. Ou a de Pelé clamando "love, love, love".