"Atenção! Tenho movimento às minhas 12 horas". Afonso dá o alerta para o pequeno microfone que traz agarrado ao camuflado. Está escondido por uma parede de um dos edifícios devolutos do antigo sanatório de Valongo. A posição é de defesa e só se atreve a espreitar o inimigo quando deixa de ouvir as rajadas de tiros. "Granada!". O berro vem de longe, mas o engenho explode ali perto, deixando o ar repleto de fumo. São 11 horas e o alto da Serra de Santa Justa está convertido num cenário de guerra.
O monte foi, ontem de manhã, invadido, mais uma vez, por dezenas de praticantes de airsoft (ou softair), um jogo de simulação das operações das forças especiais. Minutos antes de entrarem em acção, já vestidos a rigor, dos pés à cabeça, os homens da equipa adversária prepararam a táctica, decidiram quantos atacavam de cada lado, carregaram as armas e afinaram as frequências dos rádios. Começava o ataque dos vestidos de pretos contra os camuflados.
A encosta acidentada dificulta o avanço. Além disso, os anexos do sanatório que é preciso conquistar estão num local demasiado aberto. Há muitas árvores, mas os troncos finos e queimados por um fogo recente denunciam as posições.
"Morto! Atenção, vai passar um morto", a frase é recorrente e faz parte do código de honra do airsoft. O alvo atingido tem de levantar a arma e avisar bem alto que está fora de combate. Quem não o fizer sujeita-se a ganhar a alcunha de imortal e a deixar de ser convocado para os jogos. Ali ao lado, são os "mortos" que vão contando as peripécias do jogo ao JN.
Francisco, o "rambo", é um fanático de airsoft. "Estamos a preparar uma sessão de 24 horas, com jogos à noite e tudo", diz, enquanto espera que os colegas morram para entrar de novo em acção. Não gosta de estar de fora.