Visto do norte, o dilema da Ota, o novo mega-aeroporto a 50 quilómetros de Lisboa, suscita diferentes perspectivas e exacerbadas preocupações regionais, aliás totalmente legítimas e pertinentes. Esse facto só acentua a importância e o peso, para o bem e para o mal, do empreendimento - e diz muito de quanto o debate em torno dessa infraestrutura gira em volta do ordenamento futuro do território no todo nacional, porque o seu impacte, económico e social, estará longe de se confinar à região de Lisboa.
A localização do aeroporto justifica cerradas polémicas técnicas. O ambiente é esgrimido como arma dos diversos argumentadores. A verdade é que, a ser concretizado, importa que a localização afecte o menos possível o nosso já tão abalado património natural, sendo que de qualquer forma não haverá nessa matéria "custo zero", bem pelo contrário! Trocar capital natural por efémero capital financeiro, ou pela expectativa dele, é de resto o que se está a fazer - basta olhar como são tratadas as reservas naturais que restam e como os famosos PIN - Projectos de Interesse Nacional - são na prática o "o salvo-conduto" de intenções crescimentistas, vias verdes para ultrapassar o incómodo de leis de impacte ambiental e de ordenamento do território!
Uma "economia carbónica" reforça os factores de atraso, ao contrário do que se pensa, face às mudanças que a crise climática necessariamente trará, como o desprezo pela conservação da Natureza, da paisagem e da biodiversidade acabará por se pagar caro, porque o capital natural dilapidado não poderá ser reposto ou substituído.
Mas não nos afastemos da OTA. Polémicas técnicas à parte (esta é uma decisão eminentemente política) e como a localização da coisa ainda vai fazer correr muita tinta (a questão é complexa e não cabe na crónica nem o cronista se quer perito em aeronáutica civil) deixo apenas uma nota sobre um problema que tem sido pouco discutido.
A alegada necessidade de um novo mega-aeroporto estribou-se sempre num cálculo generoso do crescimento do tráfego aéreo que "toca" Portugal. Esse cálculo foi já posto em causa por diversos especialistas. Uma das razões para tal é a alto nível das emissões de gases de efeito de estufa causado pela aviação comercial, até porque os aviões estão muito longe de terem alcançado melhorias sensíveis na eficiência do consumo energético e dependem totalmente de produtos petrolíferos.