Tal como dos cidadãos, também das cidades se pode dizer que têm ou não carácter, personalidade própria e marcante no espaço vivencial do seu desempenho. Sem ir fora de portas, podemos afirmar que o Porto, a nossa cidade, é uma urbe com carácter pelo seu processo histórico de formação e crescimento; pelas vicissitudes várias e difíceis que foi capaz de ultrapassar ao longo dos séculos e que serviram até para lhe reforçar a personalidade; pela imagem urbana e arquitectónica única; e pela têmpera dos seus cidadãos, caldeada de gestos permanentes de luta e resistência.
Pelo compacto histórico e pelo modo como se foi construindo, enriquecendo-o, o Porto é um caso exemplar de cidade com carácter. Não restando, quanto a isto, grandes dúvidas, é caso para avançar e fazer a pergunta será que a cidade hoje, na encruzilhada de perplexidades em que se encontra, tem verdadeira consciência deste valor e é capaz de se servir dele para perscrutar o futuro e lhe compreender os sinais? Creio ser esta uma dúvida que bate à porta do espírito de muitos portuenses, inquieta- -lhes a consciência cidadã e chega, porventura, a perturbar- -lhes o sono. De outro modo, creio que o Porto está a ser submetido, uma vez mais, a um teste ao seu carácter, um verdadeiro desafio com alguns sinais provocatórios à sua capacidade de traçar o caminho correcto e não tolerar ser empurrado para onde não deve ir.
O processo de crescimento urbano das cidades que formam a coroa envolvente do Porto, com raras excepções, está longe dos traçados metodológicos que assegurem carácter e coesão aos respectivos territórios, não sendo preciso andar muito para lá das fronteiras administrativas para o entender. E isso mais reforça os valores urbanos do carácter da cidade, o imperioso de sobre os mesmos reflectir e a necessidade de avançar com rumo claro em direcção aos objectivos daquilo que a cidade quer.
É isto uma questão de política, só, ou vai mais longe e compromete cidadania e clareza de objectivos culturais?
Uma coisa e outra, sem esquecer que a política será sempre um meio ou instrumento de afirmação, ou não, da vontade colectiva e do sentir da alma profunda que mora e dá suporte a este corpo de cidade. O carácter do Porto é conhecido pela vertente insubmissa; não foi por acaso que Camilo disse, nas suas "Noites de insónia", que "no Porto as comoções que sacodem os nervos da grande cidade são raras; mas se rebentam são a valer", afirmação que já vai distante no tempo mas é bom recordar, pois ajusta- -se bem ao estado de espírito que a cidade vive, remoendo uma apatia que lhe pode mesmo tomar a alma.