Qualquer coisa que aqui terei escrito sobre as escolas que alegravam as nossas aldeias e agora já não alegram trouxe-me muita correspondência. Agora, mandam-me um longo artigo do jornal da vila próxima com uma ameaça que é grave todas as famílias que ainda resistem naquelas serras, bons e esforçados lavradores, pois, perante a notícia do fecho da escola, estão prontos a desistir. Sem escola nem centro de saúde, pois seguirão os seus primos e parentes que já arrancaram a caminho dos subúrbios da cidade, deixando atrás de si o deserto. E dizem com razão: aí terão direito a tudo, escolas e até universidades, hospitais, casas feitas pela Câmara ou pelo Estado, e quantas coisas mais! Enquanto eles, naquelas serranias, nada, e ninguém lhes agradece. Os filhos, por certo, até os maldirão. E o pior é que os chefes me pedem uma ideia, seja ela qual for, que permita suster a ameaça.
Que hei-de fazer? Aumentar o número de crianças, não posso. Pus-me a pensar e veio-me uma ideia que, pelo menos para mim, me parece razoável. Todos os portugueses têm direito à escola e à instrução, não têm? A Constituição não diz bem isso, e está mal, fala em "liberdade de aprender", o que não é bem a mesma coisa. Mas, pelo menos, eu dou a todos os portugueses o direito de aprender, e até mais, o dever de aprender. Se assim for, nessas aldeias perdidas nas serranias, outras pessoas não haverá, mas velhos a que no seu tempo não foi garantido esse direito, pois não faltarão. Quem está em falta, afinal, é o Estado português que, na altura própria, lhes não garantiu um direito que, já nessa época, era respeitado em toda a Europa. Não será a altura de se redimir? Diz o ditado que nunca se é velho para se aprender. Por que é que estes o hão-de ser? E assim teríamos muito mais alunos para a escola, mais do que os 10 da tabela. Afinal, temos escolas, temos professores e, pelos vistos, podemos ter alunos, crianças e não só. O que nos falta? E não me digam que isto assim não joga, porque já me aconteceu a mim que, entusiasmados, os alunos mais velhos, logo que aprenderam, se quiseram tornar professores. E disseram-me que até ensinavam bem. Os actuais professores até poderiam depois regressar à cidade, porque, com os novos, a escola voltaria a ser, então sim, risonha e franca.
Almeida e Sousa escreve no JN, quinzenalmente, às quintas-feiras