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Adeus ao pão-de-ló de Margaride

Publicado

Augusto Correia, Malacó
 

Os sacos de cimento meio vazios e uns tijolos perdidos junto ao balcão sinalizam uma intenção não concretizada manter viva a "Margaridense". Casa centenária, especializada em pão-de-ló, marmeladas e geleias, finou-se. Há uma página na Internet, obra virtual também inacabada, onde desfilam fotos: as malgas nas prateleiras e a montra, onde se erguia um pão-de-ló de lata, a fazer a publicidade.

A mesma montra onde, portas fechadas, se impõe um anúncio "Aluga-se". Força do destino, para qualquer ramo. "O meu interesse era manter a "Margaridense", mas sei que é difícil", diz Pinto Abreu, o dono do prédio, herdado desde o bisavô, onde jazem os restos mortais da casa. No balcão, despido da doçura dos frasquinhos de geleia e das malgas de marmelada, resta a poeira dos tempos, de seis meses de abandono. Impõe-se o buraco onde esteve o relógio da época e os candeeiros que antes alumiavam a casa das doçuras. A um canto, o cofre que guardava os segredos do pão-de-ló da "Margaridense", na forma das receitas e das pedras que serviam para pesar as quantidades do açúcar e da farinha.

"Era um museu alimentar vivo", diz Vítor Dias, genro de Elsa Santos, a mulher que fez a casa durante mais de 30 anos. "Ainda hoje me perguntam pela minha mãe", diz Elvira Silva. Instalada numa óptica, duas portas ao lado, o presente e futuro da filha da última proprietária a fazer pão-de-ló nos fornos da "Margaridense" cruza-se com as memórias do passado. "No Natal e na Páscoa, era uma correria".

Dias duros, que exigiam dedicação exclusiva. No andar de cima, havia três quartos onde descansavam do labor os empregados, gente sem família, pelos dias que antecediam o Natal e a Páscoa. "Vinha gente de todo o lado para comprar o pão-de-ló. Até de Lisboa. Saíam em Campanhã, almoçavam na casa Aleixo e depois vinham aqui", diz Elvira Silva.

"Agora vou ali ao pão-de-ló à Margaridense". A frase do escritor lisboeta Rúben A. foi resgatada à memória de Nuno Canavez, proprietário da livraria Académica. Instalado na esquina do Largo Alberto Pimentel, há 59 anos que assiste às alterações da paisagem comercial. "Tudo o que seja acabar é mau. Mexe comigo", diz, agitado.

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