N a semana passada, veio mais uma vez à baila o já clássico problema da "frente urbana" do Parque da Cidade. Em geral, e neste tipo de coisas, sabe-se muito pouco antes delas acontecerem, mas sabe-se que estará já em projecto a afectação a funções essencialmente lúdico-desportivas, de alguns espaços do dito parque, hoje considerados "devolutos". Trata-se de espaços sem funções definidas ou com utilizações de circunstância, mas que poderão vir a servir programas relacionados com os tempos livres, com as festividades (sejam elas populares ou académicas), com a cultura (seja ela desportiva ou qualquer outra), ou com os tempos de lazer em geral que qualquer cidade que se preze tem de proporcionar a quem a usa.
A este propósito, veio igualmente à colação a importância que têm os chamados "vazios urbanos"- na sua essência, não mais do que espaços vazios de construção - que também todas as cidades têm, seja porque no seu contínuo construído houve porções que nunca foram preenchidas, seja porque era para ser mesmo assim ou porque, um dia, o que lá havia, foi deliberada ou acidentalmente destruído e, assim, ali ficou! Os "vazios urbanos" não são, por isso, e em si mesmo, aspectos negativos ou factores de degradação do espaço urbano, sejam eles públicos ou privados e com ou sem função definida.
Claro que o conceito mais comum de "vazio" está muito mais próximo do espaço sem construção, carente de função específica ou simplesmente espectante ou abandonado do que do lugar concebido especificamente para não ter construção, como é o caso dos espaços onde a natureza e a vegetação substituem as casas, formando jardins, campos ajardinados ou mesmo parques naturais ou naturalizados e mais ou menos concebidos e formalizados enquanto tal.
O nosso "Parque da Cidade" sofre, com frequência, deste equívoco, ou seja, da ambiguidade que resulta de poder ser considerado, ou não, um "vazio" da cidade (ou na cidade) e, simultaneamente, de que tipo de "vazio" se trata. A verdade é que, por vezes, o equívoco é deliberado e, não raro, perverso porque se parte do princípio, aparentemente indiscutível, de que se trata dum espaço simplesmente espectante, ou seja, o dum espaço à espera de outra função e, portanto, de uma outra ocupação que não seja a de um lugar em que a própria natureza é protagonista.
Outras vezes, poderá haver dificuldades na afinação do conceito, mas não há equívoco nenhum porque o ponto de partida é o que corresponde à definição programática daquele espaço como "parque", cuja primeira função é a de ser um "vazio" desejado e, portanto, um espaço essencialmente livre de construção (ainda que a mesma se possa discutir e, até, admitir, sob certas condições).