Há em Portugal um problema de que se fala pouco, mas que me parece extremamente preocupante. Refiro-me à crise de socialismo, do denominado Partido Socialista Português. E afirmo isto, apreensivo e desgostoso, porque entendo que a sociedade portuguesa precisa de um PS fiel à sua identidade, como única forma de gerar equilíbrios sociais, assentes nos ideais de "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" herdados da revolução francesa e na protecção do Estado social.
Diz-se que Sarkozy saiu de Portugal, quando cá esteve há meses, contente por os socialistas franceses não serem como os nossos, porque, se o fossem, teria dificuldades acrescidas para fazer passar as suas mensagens e ser eleito, como foi, presidente da República. Verdadeira ou não, a história vale como indicador da carência de socialismo do PS, que se vai afirmando no terreno.
Evidência clara disto mesmo é o desinvestimento crescente no Estado social, especialmente visível em áreas como a Educação e a Saúde, com o encerramento de escolas e serviços e com os frequentes "ajustamentos" avulso do ministro Correia de Campos, que chegam ao ponto de poder agora conduzir a que crianças, com menos de 12 anos, passem a ter de pagar taxas moderadoras.
Ou uma política económica que parece entender que os problemas estruturais se resolvem mandando trabalhadores para a rua, entendimento esse que ajuda a explicar o facto de termos, neste momento, a taxa de desemprego mais elevada (8,2%) dos últimos 20 anos.
Mas, para lá destas orientações gerais da política do Governo do PS, vão surgindo factos singulares que apontam no mesmo sentido, e que configuram um défice de identidade socialista do Executivo e do partido que o suporta. Entre eles estão o processo movido pela Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) a um professor seu funcionário; ou as fotografias tiradas no "Passeio do Descontentamento", alegadamente usadas para agir disciplinarmente contra militares que nele participaram; ou ainda o controlo dos números da greve, decidido pelo Ministério das Finanças.