Duas mulheres; ambas viúvas. Têm 78 anos, nasceram, foram criadas, criaram os filhos, muitos, e vivem, ainda, na Rua da Pena Ventosa, trilho íngreme do Bairro da Sé, no Centro Histórico desse Porto que é, desde 1996, Património Cultural da Humanidade. O que distingue as duas figuras com percursos, aparentemente, demasiado idênticos?
A forma como habitam uma freguesia que a Câmara, nas últimas décadas - primeiro a socialista, agora a social-democrata, liderada por Rui Rio -, decidiu esvaziar sob o eufemismo de um projecto arquitectónico que pretendia "reforçar a auto-estima das pessoas e o seu apreço pela área da cidade onde vivem", atesta um documento da Junta de Freguesia.
O resultado, no entanto, não poderia ter ficado mais longe da intenção. Nos últimos dez anos, a Sé perdeu mais de metade da população até aos 14 anos e 14,4% com mais de 65. Foram transferidos para outros bairros do Porto, onde as rendas são mais baratas. As famílias que resistem são sobretudo monoparentais. Idosos, sozinhos, isolados, doentes e, muitos, a viver em condições sub-humanas.
A Sé é, hoje, uma contradição. Desde que o Governo lançou um projecto para a recuperação do Centro Histórico do Porto, houve 600 realojamentos. As casas que não foram recuperadas estão a ruir. E, aparentemente, não há critério que permita entender quem tem direito a ficar numas ou noutras. Os traficantes que até há pouco tempo existiam ali em número mais elevado inflacionaram o preço das rendas; mas agora que foram banidos deixaram os cafés vazios (ler texto ao lado).
Maria Cândida, ofegante, está sentada num degrau de pedra com o saco do pão pousado no colo. "Venho dos Correios. Fui levantar a reforma. Mas tenho que descansar antes de entrar em casa". A casa é um dúplex recuperado, com dois quartos, imponente parede de pedra que os turistas pedem "para ver e tocar" e um terraço de onde é possível contemplar os Clérigos , a Batalha, os Congregados e, ao fundo, o Douro. Custa 150 euros por mês. Ela recebe do Estado 165.